1 de Junho: dia da Criança – afinal o que é ‘Educar pela positiva’?


Se tem filhos, certamente que já constatou que os métodos de educar tradicionais não funcionam com eles. É necessária a implementação de outro tipo de regras, mais criatividade e um equilíbrio entre firmeza e afeto.

As crianças de hoje são diferentes e os métodos tradicionais não funcionam com elas.

Antes de mais, e pegando no título do seu livro, o que significa “educar pela positiva”?

Educar pela positiva é uma missão de vida. É poder partilhar com outros pais e educadores as poderosas “ferramentas” da Disciplina Positiva, que têm tido um impacto tremendo em minha casa, na minha relação com os meus filhos.

 

A Disciplina Positiva defende que enquanto pais e educadores devemos agir com as crianças com firmeza e carinho, em simultâneo. Como alcançar este equilíbrio, de forma a impor a ordem e o respeito?

Não é fácil conseguir esse equilíbrio entre firmeza e carinho. Na grande maioria das vezes, ou somos autoritários ou somos permissivos e é difícil rompermos com estes modelos de extremos. Educar com base na firmeza e no carinho exige, antes de mais, uma consciência sobre o nosso papel enquanto educadores. Somos os modelos dos nossos miúdos, as suas referências, e o poder do exemplo é tremendo. Depois, é preciso paciência, persistência, coerência e amor incondicional.

 

Qual será a realidade: será que existem crianças que funcionam apenas através de gritos e castigos, ou será que existem pais que, por terem sido educados assim, seguem estas estratégias, sem nunca tentarem educar as crianças de outro modo?

Achamos que os gritos e os castigos “funcionam”, porque obtemos resultados imediatos – por exemplo, se dissermos a uma criança que fica sem o seu brinquedo preferido se não fizer o que lhe dizemos, provavelmente ela obedecerá . Mas o impacto a médio longo prazo é negativo. Quando usamos a punição como método preferencial, a criança acaba por tomar uma de duas decisões: “Vou mostrar-te que não podes obrigar-me” (rebeldia) ou “Vou fazer porque tenho medo de ti” (submissão).

Em vez de ser levada a refletir sobre o seu comportamento, a criança estará a desenvolver sentimentos negativos perante o adulto: revolta, frustração, etc. Por outro lado, é difícil romper o padrão que conhecemos na nossa infância. Agimos por instinto quando educamos e vamos buscar aquilo que está guardado há muito tempo na nossa memória: a nossa própria educação. Se sobrevivemos com mais ou menos palmadas e castigos, porque é que não havemos de o aplicar com os nossos miúdos? As crianças de hoje são diferentes e os métodos tradicionais não funcionam com elas.

 

Quais poderão ser as consequências de gritos e castigos constantes na personalidade de uma criança?

Há diversos estudos que revelam que o impacto pode ser negativo, designadamente no cérebro da criança e no seu desenvolvimento psicológico. O grito não é mais do que o exteriorizar da frustração/impotência que o adulto sente por não conseguir resolver uma situação ou em transmitir a mensagem pretendida. É natural que quem grita constantemente com os filhos acabe por ouvir um dia os filhos gritarem com ele. É o efeito espelho a funcionar.

 

Qual o objetivo mais comum por detrás do mau comportamento de uma criança?

Podem existir variados objetivos, muitas vezes inconscientes: a fome, o sono, o medo, a ansiedade, a insegurança, a desmotivação, etc. Nós só vemos a ponta do iceberg (que é o comportamento). Não vemos o tamanho desse iceberg (que são as razões que levam a esse comportamento). Para conhecermos a dimensão do iceberg temos de sair da zona de conforto e mergulhar em águas bem geladas, e isso dá trabalho e exige uma reflexão profunda sobre como estamos a educar e quais os exemplos que estamos a transmitir. Não podemos esperar mudanças de comportamentos nos mais novos se não mudarmos nós primeiro. Somos as referências deles.

É bom constatar que há cada vez mais pessoas a quererem educar pela positiva!

Como pode uma criança desenvolver autonomia, responsabilidade, autocontrolo e autoestima se formos pais demasiado protetores? Como moderar este género de comportamento parental?

É natural que, enquanto pais, queiramos proteger os nossos filhos e que eles não sofram. Mas se os sobreprotegermos, como lidarão com o “não” ou com a frustração quando não estivermos por perto e perceberem que, afinal, o mundo não é perfeito nem “cor-de-rosa?” Como serão autónomos se fizermos tudo por eles ou responsáveis se assumimos todas as responsabilidades pelos seus erros? E que autoestima terão se não lhe dermos espaço para se porem à prova e se sentirem capazes de superar obstáculos? Educar com disciplina positiva é convidar as crianças a descobrirem do que são capazes, com segurança e dentro dos limites do bom senso, claro.

 

Até que ponto é relevante elogiar as crianças?

O reforço positivo do elogio faz parte da educação, mas é como os doces: quando abusamos deles, os efeitos podem ser nocivos. Podemos estar a criar dependência da aprovação. E quando não elogiarmos, como reagirá a criança que está tão habituada a tal? Mais poderoso do que o elogio, é o estímulo. Neste caso, o foco não está no resultado, mas no processo. E está na criança e não no adulto. Em vez de dizermos: “Muito bem, fizeste mesmo como eu te disse! Ainda bem que me ouviste”, é muito mais poderoso dizer: “Deves estar orgulhoso de ti. Já viste o que consegues fazer?

 

Como agir perante conflitos constantes entre irmãos sem tomar partido de nenhum?

Não é fácil, mas aprendi uma regra com a disciplina positiva que me tem ajudado muito com os meus filhos: colocar todos no mesmo barco. Isto significa vê-los como iguais (sem “adultizar” o irmão mais velho), ouvir sempre os diferentes lados da história e procurar que resolvam os problemas entre eles (com a minha ajuda ou orientação, quando necessário). Hoje, há sempre um que cede e dá o primeiro passo para a resolução, iniciando uma negociação, dando um abraço, abdicando do brinquedo. Foi um processo que demorou algum tempo, mas com resultados animadores.

 

A tecnologia é o grande desafio dos pais, porque não existe uma receita que possam seguir da geração anterior.

 

Que limites colocar para que o uso das tecnologias por parte da criança seja saudável?

A tecnologia é o grande desafio dos pais, porque não existe uma receita que possam seguir da geração anterior. Costumo dizer nas formações Educar pela Positiva que este tema se resume a duas ideias simples: regras e criatividade. Quanto mais cedo estabelecermos essas regras, dentro daquilo que seja razoável para nós, melhor. Mas podemos começar a envolver as crianças desde cedo na criação dessas regras, criando uma espécie de “contrato”, em que elas participam dando a sua opinião. E até podem ser envolvidas na criação das consequências para o incumprimento das regras estabelecidas.

Depois, a criatividade. É natural que, muitas vezes, queiramos uns minutos de descanso, sem as tradicionais birras. E que lhes passemos o telemóvel ou o tablet para as mãos. Não sou fundamentalista quanto a isso, mas pergunto: que tempo sobra para conversarmos? Que impacto está a ter o uso da tecnologia na relação adulto/criança? Como reagem quando lhes tiramos aquilo das mãos ou lhes negamos o acesso? Se formos criativos – dando-lhes opções divertidas que os estimulem – evitamos entrar numa luta de poderes e estaremos a criar memórias que ficam para a vida.

 

Segundo a sua experiência, que tipo de pais são os portugueses?

Não gosto de rotular, por isso diria apenas que os pais portugueses dão o seu melhor, fazem o melhor que podem e que sabem para educar os seus filhos. Felizmente, estão cada vez mais conscientes do seu papel e procuram ter mais “ferramentas” e estratégias para lidar com os desafios. É bom constatar que há cada vez mais pessoas a quererem educar pela positiva!

Educar pela positiva: um guia para pais e educadores

Nuno Pinto Martins, autor de Educar pela positiva: um guia para pais e educadores

Entrevista originalmente publicada na revista Vida & Saúde Natural, nº 28.

 

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