7 de abril: Dia mundial da Saúde – O que é a saúde?


O conceito de saúde tem mudado ao longo dos tempos. Na era pré-hipocrática, a saúde era vista como uma dádiva divina e foi Hipócrates, no século V a.C., que chamou a atenção para a dependência da saúde das condições sanitárias, da higiene pessoal e da alimentação. Teorizava, então, que a saúde era um estado de equilíbrio entre quatro fluidos corporais: o sangue, a bílis amarela, a bílis negra e a fleuma.

 

O conceito de saúde também não é uniforme em todas as civilizações: os aborígenes australianos, por exemplo, definem a saúde como um bem-estar físico, mas também social, emocional, espiritual e cultural de toda a comunidade. Mas o que se entende por saúde no ocidente e no século XXI?

Quando faço esta pergunta a alunos de Medicina, obtenho invariavelmente a mesma resposta, idêntica à que me dará qualquer grupo de profissionais de saúde, ou seja, que a “saúde é um estado de completo bem-estar físico mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”, definição proclamada em 1946 no rescaldo do fim da II Grande Guerra Mundial pela Organização Mundial de Saúde (OMS). É este o conceito prevalente em todos os documentos sobre saúde e também o foi, embora de forma não explícita, no principal documento estratégico nacional: o Plano Nacional de Saúde 2004-2010. Esta definição, que ainda se mantém, teve o mérito de perspetivar a saúde numa dimensão holística, mas a sua abrangência tornou-a também pouco operacional. A identificação da saúde com a ausência de doença e com um completo bem-estar em todas as vertentes da nossa vivência, justifica o aforismo de que uma pessoa saudável é uma pessoa mal diagnosticada. O que distingue esta formulação do conceito de felicidade? Os profissionais de saúde são responsáveis pela felicidade das pessoas? Só podemos ter saúde ou não ter saúde? Se a saúde é um direito, será realmente possível garantir este direito a cada cidadão? Será que a saúde é entendida e valorizada da mesma maneira, independentemente dos valores, cultura e crenças?

 

Redefinir o conceito

Na prática clínica é frequente perguntarmos a pessoas na consulta, que vêm só para uma revisão, se são saudáveis, obtendo uma resposta afirmativa e acabarmos com uma listagem de várias doenças ou problemas. A verdade é que, enquanto continuarmos a fazer o que gostamos, basicamente consideramo-nos saudáveis. A saúde não é dicotómica. É compatível com a existência de doença e diz respeito à pessoa, enquanto a doença está relacionada com o órgão ou parte do corpo ou da mente. A este conceito corresponde, muitas vezes, uma gradação e diversidade de entendimentos, em função de variáveis como o contexto socioeconómico, cultura, etnia, idade, profissão ou outras.

Além disso, a definição da OMS corresponde a uma epidemiologia das doenças que se modificou muito significativamente: enquanto nos anos 40 eram as doenças agudas as que mais impacto tinham na sociedade e as pessoas morriam precocemente de doenças crónicas, na atualidade, estas tornaram-se muito prevalentes e uma elevada percentagem da população vive bem e durante muito tempo, apesar de sofrer de uma ou mais doenças crónicas. Estas são algumas razões que têm levado autores a criticarem a definição da OMS como não mensurável, dicotómica, utópica e irrealista, e a defenderem a necessidade da sua redefinição.

 

Formulações propostas

Uma das primeiras propostas para modificar este conceito redefiniu a saúde como a capacidade de prosseguir os objetivos vitais, isto é, o conjunto de objetivos necessários e suficientes para conseguir uma felicidade mínima. Apesar disso, também esta definição não é consensual na medida em que admite como saudável alguém com uma doença que não afeta o seu bem-estar, e como doente uma pessoa com a mesma condição, mas diferentes objetivos vitais que não consegue realizar.

Já em 2011, outro grupo de autores propôs definir saúde como “a capacidade de a pessoa se adaptar e autogerir”. Essa capacidade de adaptação, no domínio físico, seria a capacidade de manter a homeostase fisiológica através de circunstâncias em mutação, no domínio mental, a capacidade de recuperação após um stress psicológico importante e, no domínio social, a capacidade de gerir a própria vida com algum grau de independência e participar nas atividades sociais, incluindo o trabalho.

Na realidade, a formulação de 1946 da OMS já não se enquadra no pensamento atual e seria importante redefinir a saúde à luz deste pensamento e de acordo com o que é o sentir dos cidadãos, separando-a da noção de felicidade e acentuando a sua dependência dos objetivos vitais de cada pessoa. Esta necessidade de atender aos objetivos vitais de cada pessoa é uma experiência quotidiana da prática clínica. A decisão de opções terapêuticas em função de efeitos secundários possíveis a que o doente não se quer sujeitar, a intensidade do tratamento em fases da vida do doente em que este não pode parar e a priorização da modificação de comportamentos de risco – são apenas exemplos dessas negociações que fazemos diariamente.

 

Luís Campos

Internista, Médico da Clínica CUF Belém

Presidente da Comissão de Qualidade e Assuntos Profissionais da Federação Europeia de Medicina Interna

Artigo originalmente publicado na revista Zen Energy de abril 2020.
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