Cancro do pulmão: A vigilância pode fazer a diferença?


Lung cancer in human body illustration

O cancro do pulmão é um dos cancros mais temidos. É a principal causa de morte por cancro a nível mundial e tem uma sobrevivência aos cinco anos baixa.

 

Em Portugal é o quarto tumor maligno mais frequente e o cancro com maior mortalidade. É responsável por mais de 4000 mortes por ano e a sua incidência continua a aumentar. Afeta mais o sexo masculino, mas desde que as mulheres começaram a fumar mais, a percentagem neste sexo tem estado a aumentar e em alguns países já ultrapassou o cancro da mama. Existem vários tipos de cancro e têm gravidade e abordagens diferentes.

 

Fatores de risco

Sem dúvida que o fator de risco mais importante é o tabagismo. O cancro do pulmão está associado em 85 a 90% aos hábitos tabágicos. Cerca de 13% dos fumadores vão ter cancro do pulmão. Assim, em cada 10 fumadores, um vai ter cancro do pulmão. Há uma relação direta entre o risco de cancro do pulmão e o número de cigarros por dia, e número de anos de consumo do tabaco.

 

No entanto, a mulher é mais sensível aos malefícios do tabaco e basta fumar dois a quatro cigarros por dia, para ter um risco acrescido de cancro do pulmão e de doença cardiovascular.

 

Os fumadores passivos também têm maior risco de vir a desenvolver cancro do pulmão. Em relação ao cigarro eletrónico e cigarro aquecido, estes também têm na sua composição substâncias que provocam cancro, não sendo inócuos. Existem ainda outros fatores de risco, tais como a exposição ao amianto e radão.

 

Quais são os sintomas?

O tumor do pulmão pode ser silencioso e os sintomas só aparecem quando já está muito avançado, sendo o diagnóstico feito tarde demais. Esta é uma das causas por ter tão mau prognóstico. Existem sintomas para os quais se tem de estar atento, tais como tosse persistente, ou no caso de se já ter bronquite, alteração das caraterísticas da tosse, expetoração com sangue ou perda de sangue vivo pela boca (hemoptises), dor torácica, falta de ar e rouquidão.

Habitualmente, está associado a emagrecimento, falta de apetite e cansaço. Estes são sintomas que os fumadores, principalmente a partir dos 50 anos, têm de ter atenção. Nos casos em que a doença se encontra avançada, ou seja, já com metástases, os sintomas podem estar relacionados com os locais de metastização, tais como dores ósseas ou dores de cabeça.

Cancro do pulmão - fumadores

 

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é feito pelo raio X ao tórax, quando está em fases mais avançadas, mas na maior parte é feita pela Tomografia Computadorizada (TAC) do Tórax que permite diagnosticar os cancros em fases mais iniciais e a sua extensão. Quando existe alteração nos exames radiológicos, é preciso fazer biópsias para se ter o diagnóstico definitivo, pelo que deve fazer uma broncofibroscopia, ou seja, uma endoscopia aos brônquicos para ver se tem alterações e fazer a biópsia. Noutros casos, é ainda necessária a realização de uma biópsia transtorácica.

 

Qual o tratamento?

O tratamento depende de uma série de fatores, tais como o tipo de tumor, a sua localização, a sua extensão local e a existência ou não de metástases. Depende ainda do estado geral do doente. Habitualmente, o tratamento principal é a cirurgia. Em alguns casos, associa-se a quimioterapia e/ou a radioterapia. Noutros casos só é feita quimioterapia. Atualmente, existem mais estudos que podem ser feitos para caracterizar melhor o tumor e fazer uma terapêutica mais dirigida. Após estudo molecular, pode ser feita imunoterapia terapêutica, caso esteja indicado, com bons resultados. Podem ainda ser realizados outros tratamentos que, para além de controlar o cancro do pulmão, vão tratar os sintomas, melhorando a qualidade de vida do doente.

 

Qual o prognóstico?

Depende da fase em que é diagnosticado. Nos casos em que o diagnóstico é feito numa fase inicial pode ser curativo. Infelizmente, o cancro do pulmão, na maior parte das vezes, é descoberto muito tarde e, muitas vezes, já não é possível a cirurgia, daí ser tão importante o diagnóstico precoce.

 

Prevenção

O essencial é deixar de fumar. Quanto mais cedo melhor. Infelizmente, só após 15 anos de cessação tabágica é que o risco fica quase ao nível do não fumador, mas nunca ficando ao mesmo nível. Mudar para outras formas de fumar, tal como o cigarro eletrónico ou aquecido não é solução. Não podemos esquecer-nos do tabagismo passivo e deve evitar-se estar na presença de fumadores. No caso de ser um fumador habitual, deverá realizar consulta periódica com o seu médico de família ou um pneumologista para efetuar um diagnóstico precoce do cancro do pulmão. Poderá também realizar uma consulta de cessação tabágica, que o ajudará a combater esta dependência.

 

Vigilância

A partir dos 50 anos, nos grandes fumadores e nos ex-fumadores há menos de 15 anos, é importante a vigilância. Existem estudos que demonstram que é possível efetuar o diagnóstico precoce do cancro do pulmão, recorrendo à realização de tomografia axial computorizada (TAC) de baixa dosagem. A tomografia computadorizada (TAC) de baixa dosagem é um procedimento válido e seguro para fazer rastreio de cancro do pulmão em populações com risco essencialmente baseado na carga tabágica.

Se realizada anualmente, nos grupos referidos anteriormente, contribui para a deteção precoce e para a probabilidade de redução de 20% das mortes por cancro do pulmão, com possibilidade de tratamentos efetivos em fases mais precoces e com maior percentagem de cura. Nesta altura de pandemia há muitas pessoas que adiaram consultas, exames e tratamentos por medo de contágio e quando foram ao médico, as patologias já estavam muito avançadas. Não há que ter medo: as unidades de saúde seguem circuitos e protocolos para segurança de todos.

 

A prevenção e a vigilância são essenciais. Se tem mais de 50 anos, se é fumador ou se deixou de fumar há menos de 15 anos, não adie: vá ao seu pneumologista e faça o rastreio.

 

Cecília Pardal

Pneumologista no Hospital CUF Cascais

Mais artigos sobre Saúde Pulmonar no nosso site.

Anterior O que é a amizade?
Seguinte Reiki: Com cultivar a energia positiva?