Como as crianças lidam com a morte – 5 fases do luto


A morte é um processo natural que faz parte integrante da vida de qualquer ser humano e também da vida das crianças!

As experiências de perda são algo que iremos vivenciar sempre, em qualquer momento da nossa vida. Quando somos mais pequenos, e se a perda for de alguém muito próximo, nomeadamente pai ou mãe, provoca um grande impacto na vida das crianças e pode mesmo alterar a forma como veem, sentem e percecionam o mundo à sua volta. Perder um dos pais em criança é uma dor muito grande, para além do imaginável.

Enquanto psicoterapeuta, estas situações mexem sempre comigo. Ainda assim, por mais doloroso que seja, é preciso explicar, falar com verdade, abrir o coração, para que as próprias crianças sintam que podem fazer o mesmo. Os pais não devem evitar falar sobre o assunto, com as palavras e os conceitos adequados à faixa etária de cada criança, permitindo que estejam integradas em todo o processo e respeitando os passos que ainda não conseguem dar.

Por exemplo, depois da morte de um dos pais, as crianças podem ter dificuldade em voltar à escola. É preciso ter bom senso na forma como respeitamos essa dificuldade e a forma como reforçamos e damos segurança para serem capazes de voltar a encarar a vida. Uma vida que é agora um espaço novo, porque lhes falta uma das pedras essenciais e, provavelmente, nunca imaginaram que teriam de se preparar e fortalecer para isso. Um passo de cada vez, sem desistir do propósito final, é sempre um bom guia!

 

Quando não sabem o que se passa…

A morte, por si só, é um trauma e não podemos acrescentar outros porque não conseguimos explicar aos nossos filhos que alguém partiu, porque não lhes demos a oportunidade de se despedirem, porque não explicamos a situação de forma clara e deixamos campo aberto para que se criem fantasias que são sempre piores do que a realidade e acarretam, muitas vezes, sentimentos de culpa inexplicáveis que vivem no coração dos mais novos.  “A minha mãe foi-se embora porque me portei mal” ou “Ainda estou à espera que o meu pai volte” são exemplos do que as crianças sentem quando não estão perfeitamente conscientes da situação.

 

A criança só começa a ter a noção da morte a partir dos 5 anos de idade, pelo menos como algo definitivo.

Até essa idade, o conceito de morte está mais associado ao medo de ficar sozinho e afastar-se de alguém que é muito importante na sua vida. Ainda assim, é imprescindível que as crianças compreendam de forma correta para a sua idade que o pai ou a mãe não podem voltar.

Uma vez, ouvi uma criança de 3 anos dizer que esperava que a mãe viesse do céu, porque lhe tinha sido explicado que a mãe tinha ido viajar para o céu. Com 3 anos não sabemos se o céu é um paraíso com praia e sol, ou se é um lugar do qual não podemos voltar, e acabamos por induzir a criança em erro e aumentar a sua angústia e ansiedade.

Entre os 5 e os 8 anos já começam a perceber a morte, mas como alguma coisa má, imutável. Não compreendem a morte como algo associado à funcionalidade do corpo. Só a partir dos 9 anos é que realmente conseguem conceber a morte como algo inevitável.

 

As 5 fases do luto

Independentemente da idade da criança, é fundamental que possa vivenciar e ser compreendida em todas as fases do luto:

  • Negação – É difícil entender e aceitar a perda. Parece que estamos a viver um “filme” e que no dia seguinte vamos acordar e a nossa vida voltou ao normal. Temos tendência a racionalizar a situação e a minimizar o impacto que ela tem e terá nas nossas vidas, negando o ocorrido.
  • Raiva –Direcionamos a raiva a todos os que nos rodeiam e que nos são próximos. Podemos também sentir raiva de nós próprios por não termos feito as coisas de forma diferente, acabando por nos culpabilizarmos. É muito comum as crianças ficarem com situações mal resolvidas dentro de si e é muito importante que sintam abertura para conversar e fazer todas as perguntas que sintam necessidade.
  • Negociação – Nesta fase compreendemos que a raiva que sentimos não muda o acontecimento. Ficamos numa espécie de “negociação” e reflexão interna, de forma a adquirirmos mais paz interior e serenidade.
  • Depressão –Depois de uma perda, é normal que exista a sensação de cansaço extremo. Sentimos muita tristeza e choro fácil. Ficamos mais silenciosos e podemos ter alterações no apetite ou no sono. Ficamos emocionalmente mais fragilizados.
  • Aceitação – A tristeza e a saudade podem ainda estar presentes nesta fase, mas já começa a ser possível pensar no futuro e a sentir esperança e alegria. Conseguimos voltar a sentir emoções serenas e a estar predisposto para a mudança.

 

O tempo que cada pessoa demora a fazer o luto é muito variável e não existe um tempo certo ou errado. É fundamental que estejamos nesse caminho, que a família ajude a criança a sentir as suas dores, a verbalizar o que a preocupa ou angustia, que possam chorar sempre que precisam (acontece sobretudo à noite quando acabam as atividades que os distraem) e que falem da pessoa que partiu, para que as memórias façam com que permaneça viva dentro deles.

Um dia tive uma menina de 7 anos que tinha perdido a mãe há menos de 1 ano a dizer-me que estava com o coração apertado, porque a imagem da mãe já não estava clara dentro de si. Nesse momento, fizemos um cartaz cheio de fotografias da mãe e ela colocou-o no seu quarto.

Como cada criança é uma criança, devemos estar atentos às suas necessidades e respeitarmos a individualidade de cada um, definindo estratégias diferentes (mesmo entre irmãos) que vão ao encontro da forma como podem ou conseguem vivenciar estes momentos.

Lembramo-nos que os pais são eternos dentro de nós, cultivarmos as memórias, as histórias e as recordações enquanto rimos e choramos nessa partilha é mesmo a única forma de ir fazendo o luto e de manter essas pessoas tão importantes vivas no nosso interior.

 

Ana Galhardo Simões

Psicoterapeuta Corporal

www.espacocrescer.pt

Mais artigos sobre Pais/Filhos no nosso site.

Anterior Escolha a alegria: Nutrir o jardim interior
Seguinte Terapia de casal: Reiki nos relacionamentos