Cuide de si


Asian Girl is lying down on the new vintage wood boat on the Lily Lotus Leaf pond at outdoor field.

O melhor presente que se pode oferecer…

Imagino que já tenha tido a sensação de que a vida lhe escapa por entre os dedos. Os dias passam a correr, uns a seguir aos outros, a uma velocidade que, tantas vezes, nos ultrapassa. E nós mantemo-nos à superfície, cumprindo as infindáveis tarefas a que nos propomos. Sem nunca parar ou pausar. Sem consciência de que esta é a nossa Vida, que merece ser vivida na sua plenitude.

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Vivemos em piloto automático, desligados de tudo o que nos rodeia. Afastados de nós próprios e da nossa verdadeira essência. É como se a humanidade tivesse chegado a um profundo ponto de exaustão. De acordo com um estudo recente, Portugal é dos países da União Europeia com maior risco de burnout. O equilíbrio entre a vida profissional e pessoal raramente se consegue, o que tem impactos negativos na saúde e bem-estar.

Também já foi assim comigo. Lembro-me bem da correria desenfreada, da longa lista diária de afazeres, das preocupações com o trabalho, com as filhas, com a casa, com a família. Era tudo tão avassalador que não havia espaço para mais nada. Aos poucos, ia-me relegando para último plano. Manter-me à superfície, sem me afundar, era o meu único propósito. Mas dentro de mim vivia um vazio, que me enregelava a alma e o coração. Este sentir permitiu-me despertar. Hoje consigo entender isso. Foi o início do regresso a mim.

 

Está onde gostaria de estar?

O tão aguardado período de férias está a chegar, momento pelo qual ansiamos o ano inteiro. Podemos, finalmente, descansar desta vida acelerada. Porque não fazer um reset e acolher este milagre da vida, presente a cada nova respiração? Como diz Jon Kabat-Zinn, professor de medicina que se tem dedicado à meditação mindfulness, não controlamos as ondas, mas podemos aprender a surfá-las.

Convido-o a seguir viagem comigo. Cuide de si neste período de descanso. Leve consciência às várias dimensões da sua vida. Notando o seu corpo, as suas emoções, sensações e pensamentos. Leve curiosidade e amor a esta jornada. Confie no processo. Como se estivesse a conhecer melhor um novo amigo. Só que é a si que está a (re)conhecer.

 

Quando somos pequenos vários são os ensinamentos que recebemos. Mas, em regra, ninguém nos diz como é importante este olhar para dentro.

Aproveite para refletir sobre os meses que antecederam, levando consciência ao que foi vivido e sentido. Questionando se está onde gostaria. E se a resposta for negativa, investigue. Mantenha a esperança nas infinitas possibilidades da vida. O que deseja verdadeiramente? Traga mais atenção às suas vivências e note que a vida é neste preciso instante. E que nada é garantido.

 

Caminho interior

Lembro-me de ter participado num retiro de silêncio há vários anos. No dia de regresso a casa, o facilitador deixou no ar uma questão para nossa reflexão: “Se apenas tivesses um ano de vida, estarias a fazer o que estás a fazer hoje?”. Esta frase foi como uma seta, em cheio, no meu coração. Sei bem que nem sempre estamos em condições de largar tudo e de fazer, de imediato, aquilo que amamos porque temos responsabilidades para cumprir, por exemplo. Mas podemos sempre reservar uma parte do nosso dia para fazer algo que faça a nossa alma sorrir. A não ser assim, que sentido terá esta nossa jornada?

Costumo dizer que a cura se inicia com a tomada de consciência. Se não conhecer aquilo que me afeta, como fazer diferente? Se não souber o que me move intimamente, como alcançar uma vida com mais significado? O caminho interior é muito rico e várias são as possibilidades que temos para percorrê-lo. Explore aquelas que lhe façam sentido. Imagine a sua vida como um novelo de lã, bem emaranhado. Encontre uma das pontas e vá puxando suavemente. Sem pressas, nem correrias. Goze cada momento. E sempre que sentir um nó nesse seu novelo, desembarace cuidadosamente.

Comigo também tem sido assim. Desde o momento em que decidi olhar para dentro, aos 30 anos, a caminhada tem sido feita passo a passo. Nem sempre é linear, alguns dias são dois passos em frente, noutros um passo para trás. Faz parte.

 

É possível aprender a ser feliz!

Várias foram as ferramentas que me guiaram. Quando percebi que algo tinha de mudar, de certa forma “tropecei” na meditação. Uma coincidência cheia de significado. Naquela altura, mal se falava desta prática em Portugal. Recordo-me do sono que me dava em cada prática, das dores lancinantes nas costas, da forte sensação de aborrecimento. Mas com resiliência e determinação, entendi que a mente também se treina. Tal como o corpo. E à medida que o tempo ia passando, a minha consciência tornava-se mais nítida. Fui aprendendo mais, fazendo retiros e formações, com o propósito de me conhecer melhor. Depois cheguei à psicologia positiva, ciência da felicidade, onde aprendi a ser mais feliz. Sim, a felicidade também pode ser ensinada. Como cultivar emoções positivas, manter relações saudáveis, melhorar a autoestima, o amor-próprio e a autocompaixão, manter a fé e a esperança na vida. É um processo. Mais tarde entendi que as minhas escolhas se encontravam condicionadas pelos padrões de família, e então dei espaço a esta consciência sistémica. Mergulhei neste mundo mágico e profundamente transformador da terapia transgeracional e da psicogenealogia. Vi a minha história espelhada em teorias, descritas em livros, há décadas atrás. Senti como os mandatos inconscientes, passados de geração em geração, tinham uma influência direta no meu dia-a-dia. Aprendi também a dar um novo significado à minha história, seguindo (mais) livre e leve o meu caminho. Mas a história não termina aqui! Sigo, curiosa e disponível, para o que aí vem amanhã.

 

 

Vamos a isso?

Se foi possível para mim, também é para si. Disponibilize-se a viver esta transformação. E assim que estiver pronto, imagine-se dentro de um pequeno barco, sem remos, a descer um rio bem sereno. Agarre na ponta do seu novelo, deixando fluir e entregando-se à enorme sabedoria da vida. Estando atento aos sinais que vão aparecendo. E cuidando de si, a cada dia, minuto a minuto.

 

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Sara Larcher

Terapeuta Sistémica e Integrativa

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