Dia Mundial da Doença de Alzheimer


Foi em 1988 que o Prof. Carlos Garcia catalisou o nascimento da Associação Portuguesa de Familiares e Doentes de Alzheimer (APFADA) num processo de consciencialização e mobilização da sociedade civil para o problema desta doença, que é a maior das várias causas de demência.

Naquela altura, a doença era pouco reconhecida e pouco diagnosticada, e os meios terapêuticos escassos, úteis sobretudo nas manifestações não cognitivas, isto é, nos sintomas psicológicos e comportamentais. A atitude médica era de um niilismo passivo após o diagnóstico. De facto, só em 1984 é que foi identificada a proteína beta-amiloide e, em 1986, a proteína Tau, que são a base das alterações já descritas por Aloís Alzheimer, em 1906. Ou seja, trata-se das placas amiloides e das tranças neurofibrilares, que se encontram no cérebro dos doentes e consideradas alterações morfológicas centrais da doença.

Baseado neste conhecimento e na “hipótese colinérgica” como perturbação de mediadores neuronais na doença foi concluído, em 1987, o ensaio preliminar com a Tacrina, o primeiro medicamento especificamente dirigido para os sintomas da doença de Alzheimer e, hoje, já caído em desuso, devido aos inconvenientes que causava.

Doença de Alzheimer

Investigação em vários domínios:

  1. Na investigação de causas e prevenção das demências têm sido estudados os fatores genéticos, o papel dos neurotransmissores, o papel da inflamação e dos fatores que influenciam e programam a morte celular, as propriedades da Tau e da beta amiloide, e a sua influência como mecanismo desencadeante ou como resultado dos processos da doença.
  2. Ensaios clínicos sobre a ação de medicamentos, isolados ou em combinação, e da sua ação na redução dos sintomas da doença ou no abrandar ou parar a evolução da doença.
  3. Estudos que visam melhorar o diagnóstico. Destes, os estudos de imagem vieram dar a possibilidade de visualizar, em vida, a deposição da amiloide e as tranças neurofibrilares.
  4. A investigação sobre a qualidade de vida tem conduzido a uma melhor sobrevida dos doentes, com mais qualidade e com menos sobrecarga para os cuidadores. Neste campo, os tratamentos não farmacológicos também têm merecido investigação e estudo, sendo, todavia, necessários resultados mais robustos.
  5. Prevenção da doença, pela medicação, correção dos fatores de risco e aumento da resiliência por melhoria da reserva cognitiva. Estes estudos referem-se sobretudo à vantagem, na prevenção, de certos medicamentos, vitaminas, regime alimentar, estilo de vida e estimulação intelectual/cognitiva. Começa a haver evidência de que existem fatores de risco modificáveis, nomeadamente a inatividade física, a hipertensão e obesidade da meia idade, diabetes, depressão, tabagismo e baixo grau de educação/estudos. Existe já investigação que demonstra resultados positivos na prevenção da demência, por uma correção daqueles fatores associada a trabalho intelectual. (estudo Finger, na Finlândia). Em 2017, a “Comissão Lancet para a prevenção, intervenção e tratamento ao longo da vida na demência” identificou nove fatores que parecem interferir com o aparecimento e curso da doença (baixo nível educacional, hipertensão arterial, surdez, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes e pouca interação social). Numa atualização mais recente – “Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of the Lancet Commission (Lancet 2020; 396: 413–46) acrescentam-se mais três condições: o abuso de consumo de bebidas alcoólicas, o trauma crânio encefálico e a poluição atmosférica.

 

“Estimam-se em cerca de 205 mil o número de casos de demência, sendo a doença de Alzheimer cerca de 60 a 70% destes.”

 

Demência em Portugal

Existem poucos estudos epidemiológicos sobre a demência em Portugal. Todavia, é possível fazer estimativas a partir desses estudos e os números têm vindo a ser recalculados ao longo dos anos e sempre em alta. Estimam-se em cerca de 205 mil o número de casos de demência, sendo a doença de Alzheimer cerca de 60 a 70% destes. A incidência para Portugal seria de 19,9 por mil habitantes. Para uma população de dez milhões daria cerca de 199 mil, o que seria próximo do número estimado, dando-nos uma noção da grandeza do problema.

 

Esperança em novos medicamentos

Espera-se que em breve surjam novos medicamentos que consigam reverter o curso da doença, enquanto os tratamentos atuais, no seu melhor, apenas retardam a progressão. Ao longo da doença, o doente vai ter necessidades e dificuldades diferentes. Mesmo assim, o tratamento dos doentes não é apenas farmacológico e procura, sobretudo, o seu bem-estar e a sensação de qualidade de vida. Um bom acompanhamento é mesmo necessário, pois pode melhorar o bem-estar dos doentes e proporcionar alívio aos cuidadores e ao agregado familiar ou institucional em que estão inseridos.

 

Celso Pontes

Presidente da Comissão Científica da Alzheimer Portugal

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