ENTREVISTA | Dia mundial Cérebro: “Uma boa saúde cognitiva favorece a saúde mental.”


Watering a brain plant 3d rendering concept

A psicóloga Sandra de Carvalho Martins partilha, em Um Cérebro à Prova de Cansaço, um plano com mais de 200 exercícios para treinar as suas capacidades mentais. Combata o cansaço cerebral e recupere a sua memória, concentração e alegria!

 

Na sua opinião, e tendo em conta a sua prática profissional, como está a saúde cognitiva dos portugueses?

A saúde cognitiva dos portugueses foi abalada pela pandemia. Durante toda a vida vamos passando por situações que, de forma mais ou menos intensa, prejudicam o pleno funcionamento da nossa cognição, mas situações como a desta pandemia levam a que o cérebro deixe de receber tantos estímulos e desafios como receberia numa situação normal.

Além do mais, sabe-se que a Covid-19 pode acarretar problemas a nível neurológico. O nevoeiro mental (brain fog) tem sido um sintoma frequentemente reportado por aqueles que foram afetados por esta doença, manifestando-se, essencialmente, em dificuldades de concentração e de memória de curto prazo. Paralelamente, tenho assistido a um acentuar da desmotivação, da descrença nas nossas capacidades, o que se traduz na frequência com que ouço “isso já não é para a minha idade” ou “eu não tenho cabeça para isso”.

Neste cenário, considero que é importante apercebermo-nos e tirarmos as maiores vantagens possíveis da estimulação da cognição, uma atividade que tanto pode fazer pela saúde cognitiva. Como tal, a estimulação cognitiva ajudar-nos-á a perceber as áreas em que temos maiores dificuldades e aquelas em que registamos melhores desempenhos, a concluir de que forma isso impacta na nossa vida, a melhorarmos a cognição de uma forma geral, a acreditarmos mais no nosso potencial e a reforçarmos a autoestima.

A saúde cognitiva dos portugueses foi abalada pela pandemia.”

Acha que estimulamos cada vez menos o cérebro?

De uma forma geral, na idade adulta há a tendência para desempenharmos funções nas quais aprendemos a ser eficazes, e não variamos muito o tipo de estímulos que oferecemos ao cérebro. Gostamos de manter a rotina, de nos dedicarmos às atividades de que gostamos, mas é importante que se tenha noção de que sair da zona de conforto mental é desejável, porque um cérebro bem estimulado é aquele que aprende, que se confronta com novidades, que se desafia.

Repetir as mesmas atividades para estimular o cérebro, como as palavras cruzadas ou as sopas de letras, não é uma estimulação eficaz. É importante que seja do conhecimento geral que o cérebro tem sempre plasticidade, o que quer dizer que se reorganiza sistematicamente para responder da melhor forma aos estímulos que encontra no seu meio. Esta plasticidade deve ser usada a nosso favor, no sentido de treinarmos e melhorarmos as nossas capacidades e desenvolvermos uma boa reserva cognitiva, que é aquilo que se sabe que, mais tarde, nos protege dos danos neurodegenerativos próprios do envelhecimento, diminuindo assim a probabilidade de sofrer de uma demência.

 

Até que ponto a ansiedade e o stress ameaçam o bom funcionamento cerebral?

A ansiedade e o stress constituem duas grandes ameaças ao bom funcionamento cerebral quando vividos de forma acentuada. A ansiedade pode levar as pessoas a focarem-se mais nas suas preocupações e pensamentos, descurando outras atividades e tarefas, o que propicia a ocorrência de erros. Também o stress prejudica a cognição.

Quem experimenta níveis elevados de stress vê o bem-estar ameaçado e denota uma maior dificuldade em tomar decisões, uma maior probabilidade de interpretar erradamente determinados acontecimentos, dificuldades acrescidas em reter informações recentes, e a capacidade de concentração fica diminuída, tornando-se mais complicado detetar erros. Forçosamente, este cansaço mental prejudica o desempenho profissional e afeta a vida pessoal. Em suma, a forma como nos deixamos afetar pela ansiedade e pelo stress tem impacto na cognição, prejudica a memória, desencadeia o envelhecimento precoce do cérebro e pode aumentar o risco de demência.

“A ansiedade e o stress constituem duas grandes ameaças ao bom funcionamento cerebral…”

Estudos demonstraram que um estado continuado de exaustão, associado à ansiedade e ao stress, aumenta até 40% o risco de vir a sofrer de demência. Como evitar este cenário?

Em primeiro lugar, devemos ter consciência da forma como estamos a sentir e a viver o nosso dia-a-dia. Mediante essa análise, devemos ponderar o pedido de acompanhamento por parte de um profissional. Não obstante, sabemos que algumas estratégias são eficazes para a redução dos níveis de stress. O exercício físico, os bons hábitos de sono e uma alimentação equilibrada são três pilares fundamentais de um cérebro saudável. As células cerebrais consomem oxigénio e glicose como combustível, sendo que quanto mais exigente for a atividade que se desempenha, maior será a necessidade de combustível.

De enorme pertinência é também a adoção de um estilo de vida mentalmente ativo, rico em novas e diferentes aprendizagens e desafios, capazes de desencadear novas ligações neuronais e reforçar as existentes. De facto, a investigação sugere que quanto mais ativarmos o cérebro ao longo da vida, mais ágeis mentalmente nos manteremos e menor será o risco de comprometimento cognitivo em idade avançada. As atividades sociais têm também um efeito positivo no funcionamento da cognição e são um fator de prevenção contra a deterioração cognitiva.

Refere que para manter o cérebro saudável é necessário praticar exercício, ter bons hábitos de sono e adotar uma alimentação equilibrada. Contudo, diz ainda que também é importante uma boa autoestima. Porquê?

A boa autoestima favorece a adoção de hábitos de vida saudáveis. Se tiver um bom nível de apreço pela minha pessoa, vou querer cuidar bem de mim, vou acreditar mais nas minhas capacidades e ser mais recetiva aos desafios que encontro na vida. Aceitar-me, valorizar-me, acreditar que tenho um papel diferenciador e ativo naquilo que me rodeia, ajuda-me a manter-me em atividade e a viver com entusiasmo. Essa forma de estar é benéfica para a cognição.

 

No livro apresenta um plano de exercícios. Qual é o objetivo deste plano? O que vamos treinar?

O que apresento neste plano são exercícios diversificados, engraçados e inesperados para treinar sete domínios da cognição: raciocínio lógico, raciocínio numérico, atenção e concentração, linguagem, criatividade, memória e capacidades visiospaciais. São para serem feitos ao longo de sete semanas, existindo um plano de exercícios diário, com quatro a cinco exercícios. A realização desses exercícios pode demorar entre 10 a 30 minutos, tudo depende da destreza do leitor na sua resolução.

No final das 7 semanas, encontra os desafios finais que só um cérebro bem treinado tem a agilidade suficiente para conseguir resolver! Após a realização do plano, é esperado que o leitor sinta melhorias nas áreas da cognição referidas, pois ao longo de 49 dias esteve a treiná-las. De igual forma, estará mais atento ao modo como usa as suas capacidades, mais confiante nas mesmas e mais predisposto a aproveitar o seu potencial intelectual.

 

Que influência exerce uma boa saúde cognitiva na saúde mental? Uma conduz à outra?

Uma boa saúde cognitiva favorece a saúde mental. Pensemos que a saúde mental, segundo a própria Organização Mundial da Saúde, não é a mera ausência de doença, mas sim o estado de bem-estar em que cada indivíduo realiza o seu próprio potencial, tem a habilidade de lidar com os desafios da vida diária, consegue trabalhar de forma produtiva e tem a capacidade de contribuir para a sua comunidade.

Uma pessoa com uma boa saúde cognitiva está muito mais consciente e atenta às suas capacidades, assim como à forma como as usa no dia-a-dia. Esta é a pessoa que investe no seu potencial e se permite a participar em atividades intelectualmente estimulantes (como a leitura e as novas aprendizagens). Assim, vemos que estão associadas de forma intrínseca, pelo que podemos considerar que uma boa saúde cognitiva é um bom indício de saúde mental, e vice-versa.

Um Cérebro à Prova de Cansaço

Martins, Sandra Carvalho. Um  Cérebro à Proca de Cansaço, 200 Exercícios. Planeta.

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