Hipertensão arterial e sal: o que deve saber


A hipertensão arterial (HTA) é uma das doenças mais prevalentes na população portuguesa (cerca de 42% de todos os adultos) e, apesar de na maior parte dos casos não provocar sintomas durante muitos meses ou anos, é um dos principais fatores de risco para desenvolver doenças cardiovasculares (DCV), pelo que tem sido designada de “assassino silencioso”.

 

As DCV, com particular destaque para o Acidente Vascular Cerebral, o Enfarte do Miocárdio e a Insuficiência Cardíaca são a principal causa de morte no nosso país (cerca de 30% de todos os óbitos), são a principal causa de morte precoce (antes dos 65 anos) e são uma das mais frequentes causas de incapacidade e de dependência total ou parcial para realizar as tarefas básicas do dia-a-dia (comer, vestir, higiene pessoal, etc.).

 

Desde há várias dezenas de anos que está bem demonstrado que o elevado consumo de sal é uma das principais causas de hipertensão arterial (HTA), para além de estar também implicado noutras doenças com elevada mortalidade e sofrimento/incapacidade, como a insuficiência renal e o cancro do estômago. Acresce que o consumo elevado de sal potencia os efeitos negativos da obesidade e do sedentarismo, bem como de outras doenças muito prevalentes nas chamadas sociedades evoluídas, como a diabetes mellitus e a dislipidemia (colesterol e/ou triglicerídeos aumentados).

O consumo excessivo de sal também torna mais difícil o tratamento da HTA, já que obriga a utilizar mais medicamentos e/ou doses mais elevadas dos mesmos para controlar a Hipertensão arterial, com o consequente aumento da possibilidade de surgirem eventuais efeitos laterais dos fármacos.

 

Consumo de sal elevado

Diversos estudos científicos, de que se destaca pela magnitude o PHYSA levado a cabo pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão, revelaram que no nosso país ingerimos diariamente, em média, quase o dobro (10.7 gr) da quantidade de sal recomendada pela Organização Mundial de Saúde (6.0 gr).

 

  • Esta elevada ingestão de sal deve-se a hábitos alimentares inadequados que conjugam a utilização de muitos alimentos tradicionais conservados com sal (por exemplo, enchidos, bacalhau e outros peixes salgados e secos) com o hábito de adicionar sal na confecção dos alimentos e a utilização cada vez maior de alimentos parcialmente processados (enlatados, pré-cozinhados), aos quais são adicionadas grandes quantidades de sal para otimizarem a conservação e não, raras vezes, para disfarçarem uma menos boa qualidade dos produtos.

O elevado consumo de sal é ainda mais grave nas crianças e jovens, já que o seu efeito no desenvolvimento da Hipertensão arterial (e outras doenças) é cumulativo, pelo que as consequências nefastas destas doenças surgem em pessoas cada vez mais jovens.

Reduzir o consumo gradualmente

Está hoje indubitavelmente demonstrado que a redução do consumo de sal é um dos pontos-chave para o sucesso da prevenção e do tratamento da HTA e das DCV, podendo, muitas vezes, principalmente nas fases iniciais e/ou nas formas ligeiras da doença, substituir ou atrasar a necessidade de tomar medicamentos. No entanto, é incontestável, à luz da melhor evidência atual, que o paladar que o sal imprime aos alimentos tem um efeito de alguma forma aditivo, pelo que reduções abruptas do consumo de sal são habitualmente mal toleradas pela maioria das pessoas que consideram que “a comida deixa de ter sabor”.

Sendo crucial uma redução significativa do consumo de sal, a melhor estratégia deverá passar pela redução progressiva (com vista à suspensão total) do sal que é adicionado quando cozinhamos, substituindo-o pela utilização de ervas aromáticas e pelo consumo moderado/reduzido de enchidos, conservas e alimentos pré-cozinhados/processados, onde o sal pode estar “escondido” em grandes quantidades. Felizmente, existem cada vez mais alternativas destes alimentos, em que pela observação/leitura do rótulo, é possível ter a perceção do teor de sal, permitindo-nos fazer escolhas mais saudáveis.

 

Fernando Pinto

Assistente Graduado Sénior de Cardiologia no CHEDV, Santa Maria da Feira

Ex-Presidente da Direção (2013-2015)

Sócio Honorário e atual Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Hipertensão

Artigos sobre o tema ‘Hipertensão arterial’ no nosso site.

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