Mãe, meu elo mais forte, meu ponto mais fraco


O que faria se um urso feroz viesse a correr na sua direção? Fugiria? Subiria à árvore mais próxima? Ficaria petrificado, sem poder mexer-se, sem sequer conseguir pensar claramente? E se a sua mãe fosse o alvo deste urso assustador? Foi o que me aconteceu a mim, ou melhor, a ela, mas… no meu sonho ou, se quiser, no meu pesadelo.

Tive este sonho/pesadelo com 17 ou 18 anos e marcou-me para sempre. Sonhei que a minha mãe tinha caído num buraco gigantesco de onde não conseguia sair. Não me lembro de todos os detalhes, mas recordo-me do meu desespero ao vê-la lá em baixo, assustada, frágil, indefesa e vulnerável, sem poder ajudá-la. Estava sozinha num mundo selvagem de estirpes cobertas de erva e florestas esparsas. Não tinha para onde ir nem ninguém que a pudesse ajudar. Só eu. Mais ninguém. No silêncio total, sentia-se um cheiro de perigo no ar. E reparei logo no porquê daquele sentimento de perigo iminente.

Quando dei conta, um medo súbito varreu-me o espírito. Ao vislumbrar o urso, estaquei, aterrada. Era enorme, com o dobro do tamanho de tudo o que conhecia e aproximava-se furtivamente da minha mãe. Ela estava de costas para o urso e nem se apercebeu da sua presença. Estava aterrorizada, não sabendo bem o que fazer.

Nunca senti tanto medo, nunca senti tanta solidão, nunca senti tanta responsabilidade pela vida de outro ser, principalmente, da minha própria mãe. O que fazer?

Um terror total apoderou-se de mim, quando me apercebi que ela tinha sido alvo daquele enorme urso preto. De repente, como só é possível nos sonhos, deparei-me a voar e a chegar perto dela, mesmo entre a minha mãe e o urso que estava sobre as patas traseiras, agitando as garras de ferro, parecendo determinado, astuto. Depois parou. Espreitava, silencioso, esperando pacientemente o seu momento para atacar. A minha mãe ainda estava de costas, sem sentir o perigo.

Reprimi um grito quando a fera monstruosa se preparava para bater na cabeça da minha mãe com a sua pata gigantesca. Reparei que o crânio e o pescoço eram fortes, mas alongados. Olhei nos seus olhos pequenos, arredondados e famintos e sabia que estávamos perdidas. Senti o impulso de adrenalina a ser enviado do sangue para o meu corpo inteiro e a minha respiração tornou-se mais rápida. O meu coração batia com uma força que nunca achei possível. Os músculos contraíram-se de uma só vez, gerando uma força incomum. E, apesar dos meus esforços sobre-humanos de o distrair e impedir de agir, o urso bateu com força com a pata direita na parte detrás da cabeça da minha mãe, que ainda estava de costas para nós, muito desconfiada.

Como só é possível nos sonhos, comecei a negociar com o urso a vida da minha mãe que, embora seriamente abalada e magoada, ainda estava de pé. Ofereci-lhe uma troca. Disse que podia ficar comigo, se deixasse a minha mãe sair com vida daquele buraco.

O urso, que entretanto se transformou numa pessoa, vestida de preto (não se esqueça que foi só um sonho), aceitou chicotear-me e deixar a minha mãe ir embora.

O simbolismo deste sonho é enorme para mim. Hoje, sei que a vida, tal como o urso no meu sonho, não poupou a minha mãe e deu-lhe um ‘estalo’ gigantesco, mesmo atrás da cabeça, pois sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral). E eu, nada pude fazer para a proteger. Durante muito tempo, fiquei aflita por não ter conseguido aliviar o seu sofrimento. Mas, afinal, o que podemos fazer quando estamos diante dos limites que são próprios da vida e para os quais não existem remédios? Como reagir diante dos acontecimentos trágicos a que todos podemos um dia estar sujeitos?

Mas, como no sonho, a minha mãe levantou-se. Ela é uma lutadora. Mesmo depois de ter tido graves problemas de saúde, mesmo depois de ter perdido dois filhos, ela não desistiu. É impressionante a sua capacidade de não se deixar abater… Gostava de ser assim também.

Na tragédia, ela podia ter escolhido entre sucumbir de dor ou superar a dor. Muitas vezes, ainda hoje, a minha mãe sente que a vida acabou, mas a vida continua. Ela percebeu que o dia a dia é de uma riqueza sem fim e começou a saber usufruir da grandeza das pequenas coisas, pois os verdadeiros prazeres residem nos detalhes. Nem todos os dias são maravilhosos, mas há alguns sim, quando ousa pensar na beleza da vida, mesmo com tristezas, amarguras e perdas – viver é um ato divino.

Os sonhos dizem muito sobre o nosso inconsciente. Estava disposta a sacrificar a minha vida para poupar a da minha mãe. Mas, ela não precisa do meu sacrifício. Ela é forte, muito forte. Mãe, amor que flui de forma única, quantos significados faz emergir dentro do coração de cada um de nós…

Mia Couto, grande autor moçambicano, coloca na boca de uma personagem a seguinte expressão: «Injustiça é o mundo prosseguir assim mesmo quando desaparece quem mais amamos». Perder um filho, não é natural. Mas, também sentimos isso pelas nossas mães. Há mães que partem ainda novas, outras, que, de tão vividas, tornam-se nossas filhas, necessitando do nosso tão merecido amparo. E há aquelas cujo colo nos afaga a qualquer momento.

Onde quer que estejam, filhos e mães, estarão sempre unidos por um laço, por um sentimento mais forte do que tudo: o amor. Mãe, amiga, companheira, ouvinte, braço forte e ombro amigo. Mãe eterna. Mãe para sempre.

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