MUDE A SUA ROTA, ESCOLHA O SEU CAMINHO


Sunset in deep tropical jungle of Southeast Asia

Estamos todos em casa. Lamentamos o vazio nas ruas, as lojas encerradas, os cafés sem vida, os teatros assustadoramente silenciosos. As fábricas continuam de portas fechadas. O som nos campos de futebol é inexistente. Os muros das escolas têm saudades dos gritos penetrantes dos seus inquilinos, grandes e pequenos, alunos e professores. O turismo está em coma, a aviação em morte clínica. Os monumentos majestosos respiram, por fim.

Nos hospitais ouve-se apenas o zumbido dos ventiladores e os sussurros da equipa médica. As lágrimas ficam suspensas na ponta das pestanas, o sorriso torna-se num ricto e o choro, discreto, fica preso na garganta.  Enquanto o vento parece suspirar em agonia, o eco domina as cidades grandes e pequenas. Até a chuva tenta passar despercebida. Tanto silêncio torna-se ensurdecedor.

Trump ainda profere mentiras na TV, mas já não engana ninguém. Putin tem tudo “controlado”, mas alguém acredita nele? Bolsonaro mostra-se temerário. Ignora com coragem o vírus e com isso o sofrimento surdo do seu povo, mas enfrenta a “gripezinha como um verdadeiro homem.” Kim Jong-un exige grande disciplina. Ordena fechar hermeticamente todos os canais através dos quais a doença se possa infiltrar. O seu povo já estava há muito preso na teia do autoritarismo, não deve estranhar… Órban na Hungria aproveita-se da desgraça mundial para transformar o seu país numa ditadura. Boris ganha o Brexit, mas perde a batalha contra o vírus. O Papa caminha sozinho no meio da praça deserta. Quem poderia imaginar? Guterres faz de cavalheiro solitário num desafio épico a pedir solidariedade, esperança e vontade política para “enfrentar a crise juntos”. Os países de África querem ver as suas dívidas perdoadas. E quem não quer? Nisto sim, estamos todos juntos.

Mas, entretanto, morrem os nossos avós. Os mais frágeis lutam pela vida. Continuam a adoecer os mais descuidados. Empresários e gestores angustiados tentam evitar a falência e mandam tudo para o lay-off. Funcionários apreensivos esperam manter o trabalho, ainda que modesto.  Os governos hesitam. A Europa não se entende. Parece estar à deriva. O Estado finge ajudar-nos. A burocracia dá cabo do resto.

Não, não estávamos preparados. Não, ninguém escapa ileso. Não, não estamos bem. Estamos todos por nossa conta. Mas nada é tão terrível ao ponto de desistirmos de nós próprios, da nossa vida e do nosso futuro. O Mal não tem poder, à exceção apenas do poder que nós, seres humanos, lhe damos.

Elisabeth Barnard

Diretora da Zen Energy

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