O mundo digital – Telemóveis para todos os gostos


A group of multi-ethnic people sitting at a wood table in front of large windows. There is a tree just outside the window. Some of the students are looking at their tablets, while others are looking at their phones. There are red and green coffee cups sitting on the table.

De acordo com um estudo recente realizado no Reino Unido, em média, cada pessoa verifica as mensagens de telemóvel 221 vezes durante o dia, ou seja, praticamente uma vez em cada 4-3 minutos. O telemóvel acompanha o respetivo utilizador em praticamente todas as situações da vida quotidiana e o seu uso frequente implica a interrupção de encontros, tarefas de trabalho, conversas, transportes, refeições, diversões e o que mais ocorrer. Salvo raras exceções, a maior parte das pessoas dedica ao telemóvel e a outros equipamentos digitais mais atenção e, porventura, mais tempo do que a qualquer outra atividade.

A omnipresença dos telemóveis nas sociedades contemporâneas não é um hábito criado há muito tempo. Desenvolveu-se, sobretudo, a partir do momento em que os telefones inteligentes foram dotados de sistemas operativos capazes de se ligarem à Internet. O primeiro iPhone com ecrã sensível ao toque remonta a 2007. No ano seguinte, foram apresentados os primeiros aparelhos com o sistema Android. As principais redes sociais apareceram pela mesma altura e são, hoje, maioritariamente consultadas através do telemóvel.
O Linkedin e o MySpace foram lançados em 2003, o Facebook em 2004, o YouTube em 2005, o Twitter em 2006, o WhatsApp em 2009, o Google+ em 2011. Estas e muitas outras redes sociais em poucos anos adquiriram milhões de seguidores em todo o mundo, alterando radicalmente o modo como, hoje, comunicamos.

O êxito e a difusão vertiginosa dos telefones móveis inteligentes são, sem dúvida, merecidos. O telemóvel é um dispositivo manifestamente útil e, uma vez utilizado, dificilmente se prescinde dele. De tal maneira, que não será exagerado dizer que não só alterou o modo como comunicamos, como transformou o modo como nos relacionamos uns com os outros e, por conseguinte, o modo como afirmamos a nossa identidade.

As tecnologias

Numa série de livros notáveis, Sherry Turkle tem vindo a analisar os processos técnicos, sociais e psicológicos através dos quais interagimos com os dispositivos digitais e como desenvolvemos cada vez mais expectativas em relação à tecnologia e menos em relação às pessoas. Sherry Turkle é psicóloga doutorada em Harvard e professora de Estudos Sociais e Tecnologia no MIT. Tendo como suporte de investigação centenas de entrevista e inquéritos realizados desde 2008, Turkle chega a algumas conclusões que merecem séria reflexão.

Desde cedo muitas crianças e adolescentes queixam-se de que os seus pais não lhes dedicam suficiente tempo e atenção. O telemóvel está sempre presente: na sala, no quarto, às refeições, no carro, durante os passeios. Onde está um telemóvel ligado a prioridade vai invariavelmente para o seu atendimento, interrompendo o que quer que se esteja a fazer.

Os sons e as luzes das notificações estão constantemente a solicitar a disponibilidade dos adultos, criando uma sensação de urgência que se torna compulsiva. Os pais desdobram-se no exercício da multitarefa sem plena consciência do que se passa à sua volta. Entre mensagens instantâneas, e-mails, notícias na Internet, redes sociais, blogues, pesquisas no Google, selfies, músicas, vídeos e jogos, as crianças vão ficando para segundo plano até terem idade suficiente para adotarem o mesmo comportamento e passarem a conviver com inúmeros amigos imaginários no mundo virtual. Não é certamente por acaso que, quando interrogados sobre a principal razão para usarem com tanta insistência o telemóvel e a ligação à Internet, cerca de metade dos jovens entre os 18 e os 29 anos responde: para evitar que os outros se aproximem.

Salvo em determinadas circunstâncias, para grande parte dos utilizadores, o telemóvel serve para quase tudo menos para falar. Comunicamos de preferência a olhar para o pequeno ecrã enquanto carregamos em minúsculas teclas que encadeiam breves discursos elaborados para evitar qualquer espontaneidade que uma conversa ao vivo pode ter.

Nas redes sociais e nas comunidades virtuais, qualquer participante é obrigado a inscrever-se e a definir o seu perfil. Alguns indivíduos habituam-se, assim, a criar identidades alternativas, perfis idealizados, comportamentos preparados, endereços fictícios, fotografias alteradas. A fronteira entre o real e o virtual esbate-se e fica aberto o caminho para a fantasia, a mentira e a manipulação.

Relações humanas

No período da adolescência, em que a construção da identidade pessoal adquire tanta importância, a criação de identidades alternativas e a experiência de uma segunda vida no mundo virtual pode tornar-se mais do que uma simples digressão lúdica. Quando alguém passa horas obcecado em frente de um ecrã a fingir que é outra pessoa ou a ocultar quem é, pode dar-se o caso de depreciar ou de duvidar da sua própria identidade, de sentir-se dividido entre aquilo que é e aquilo que assume num domínio em que ninguém o conhece e onde vale quase tudo.

A simulação de uma identidade alternativa no ciberespaço é sempre a dissimulação de uma identidade em construção no mundo real. A crise de identidade na adolescência é um episódio psicológico vulgar e normal, mas que os jovens precisam de superar a fim de se tornarem autónomos, independentes, autênticos e responsáveis.

Nas redes sociais temos centenas de amigos que mal conhecemos – ou que nem sequer conhecemos – e com os quais partilhamos gostos e desgostos que não revelam qualquer emoção ou afinidade pessoal e que respondem apenas a uma nova etiqueta de conformidade social.

O resultado disto, constata Turkle, é uma degradação progressiva da qualidade das relações humanas e uma quebra da empatia entre as pessoas, no seio da família, no círculo de amigos e nos parceiros amorosos. A comunicação por texto mediada pelos dispositivos digitais limita a manifestação do empenho emocional característico dos verdadeiros afetos. Tudo tende a tornar-se rotina, criando uma solidão recheada de inverosímeis seguidores fantasmáticos.

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