Mundo livre de discriminação


Racismo
Stop racism concept people on meeting holding poster. Discrimination problem banner with black young people.

Vidas negras importam, vidas brancas importam, não somos uma cor, somos seres de emoções…

A discriminação que ainda existe e acomete o mundo desde dos primórdios da humanidade é expressa nas mais variadas formas, desde uma simples rejeição, a uma exploração das partes supostamente mais fracas, a escravidão ou até mesmo ao extermínio.

A história retrata este tema como sendo uma constante, apesar de a sua forma de expressão ser diferente devido aos vários movimentos anti-racistas que hoje existem. O homicídio de George Floyd, morto por um polícia em Minneapolis, suscistou com força este tema e originou revoltas pelo mundo. Do ponto de vista psicológico, de onde provém este tipo de ação discriminatória? Que emoções estão por detrás destas ações? O que podem sentir quem discrimina e quem é discriminado?

Existe uma busca consciente ou inconsciente por argumentos que justifiquem esta ação discriminatória, seja de que intensidade for. No entanto, o que varia ao longo da história e também nos diferentes segmentos de pessoas que discriminam é o tipo de argumento utilizado. Se analisarmos a história, na Antiguidade possuía um caráter mais pragmático. Por exemplo, o escravo era um prisioneiro de guerra. Na Idade Média, o caráter discriminatório estava centrado em preceitos culturais e religiosos, e o que acontecia era uma divisão entre cristãos e hereges ou cristãos e judeus, ou ainda cristãos e muçulmanos.

Já na Idade Moderna, quando surgiu o conceito de “raça” e a menção do termo raça como subtipos humanos, passou inevitavelmente a nascer uma crença numa hierarquia racial. Tudo isto levou o sistema económico a adotar a mão de obra escrava e a institucionalização da segregação das pessoas de cor negra, como no regime de Jim Crow no sul dos E.U.A., entre 1890 e 1950, o apartheid na África do Sul de 1948 a 1990 e o holocausto na Alemanha nazista antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Esta justificação da discriminação baseada na crença de diferenças biológicas entre grupos humanos foi sendo substituída pela crença em diferenças culturais profundas, mas que mantém a mesma função legitimadora das desigualdades sociais.

Em suma, é o que discorre Pereira e Souza numa pesquisa realizada em 2016.

O preconceito

Os comportamentos e ações discriminatórias, sejam individuais, coletivos ou institucionais, têm ganho visibilidade. Ao fazermos uma análise do ponto de vista pisicológico e emocional, talvez possamos entender o motivo pelo qual alguns discriminam e outros não; por que alguns se sentem discriminados e outros não; por que alguns paralisam diante de uma ação discriminatória e outros avançam crentes de que são capazes e de que não são inferiores. Toda esta diferença na perceção do sentir e desta manifestação comportamental está contida nas diferentes formas com que cada um sente e manifesta as suas emoções.

Quando se fala em emoções converge sempre para a sua origem. Todas as pessoas são diferentes. Possuem regiões anatómicas e cerebrais envolvidas com o processamento emocional constituídas e formadas de forma diferente, que, consoante a sua hiperatividade ou hipoatividade, vai manifestar emoções distintas, a genética, a parte fisiológica do processo, quantidade e processamento dos diferentes neurotransmissores (como noradrenalina, endorfinas, seretonina), a parte hormonal (cortisol, oxitocina, entre outras) e toda a parte experiencial.

Neste sentido, é preciso analisarmos algo muito pertinente: o preconceito (“uma ideia ou opinião antecipada, preconcebida sem um conhecimento, análise ou reflexão sobre o assunto, sendo sinónimo de prejuízo, prejulgamento), o qual geralmente é oriundo de uma memória, ou crença pré-concebida e adquirida ao longo da vida.

Sendo assim, do ponto de vista emocional, quem tem preconceitos e quem se sente vítima de preconceito possui, por detrás da manifestação do seu sentir, emoções que, excetuando a parte anatómica e fisiológica, foram adquiridas ao longo do seu percurso. Portanto, é como se estivessem a olhar para trás e algo que foi dito ou vivido no passado manifesta-se em desconforto presente quando alguém ou algo despoleta esta lembrança ou toca na emoção formada. Isto significa que, do ponto de vista emocional, abstermo-nos de julgamentos contribui para a saúde emocional e para o extermínio não de vidas, mas de todo e qualquer tipo de preconceito que possa prejudicar as relações humanas ou gerar conflitos, mortes, guerras.

O que nos leva a manter a neutralidade diante das diferenças étnicas e raciais, e até mesmo comportamentais? Termos a consciência de que somos seres humanos, contudo, não somos uma cor, uma religião, não somos a manifestação sexual, nem mesmo política e cultural. Somos pessoas. Somos seres emocionais e seres racionais. Somos diferentes até na expressão das nossas capacidades cognitivas, da nossa motivação para realizar, fazer acontecer. E tudo isto está ligado à nossa diferença cognitiva e bases emocionais, e não ao que os homens no decorrer da história titularam “raças humanas”. Pensar que sou maltratado porque sou “brasileiro”, “negro”, “cigano”, ou seja pelo que for, acaba por ser um fator inibitório ao próprio crescimento e expansão das capacidades. Como se, inconscientemente nesta posição, houvesse uma supressão da força de procurar realizações que dependem, acima de tudo, da capacidade de ação, da nossa crença positiva, da nossa capacidade de superação, da nossa capacidade de realizar e fazer acontecer, independentemente da cor que temos ou de onde viemos.

 

Mundo livre de discriminação

Por detrás da discriminação…

Se trabalhamos as emoções, se fazemos terapia e se estamos bem connosco próprios, ao encontro do nosso verdadeiro “Eu” e da nossa “força interior”, não vamos posicionar-nos como vítimas do sistema, pois sem perceber afastar-nos-emos da posição de pessoas discriminadas e menos favorecidas para assumirmos um papel ativo de construção a nosso favor. Por outro lado, se passarmos por situações de suposta “discriminação”, o desconforto dará lugar a uma energia motivadora rumo à conquista e à superação, porque aquilo que o move é a vontade de realizar.

Ter o poder para fazer isso é entender que é preciso colocar-nos no lugar do outro, no “mapa do outro”. Quando o fazemos, entendemos que por detrás da pessoa que julga existe um nível de consciência, memórias e todo um conjunto de experiências ao longo da vida que contribuíram para a formação das suas emoções. Existem crenças que os condicionam a agir como agem, e por mais que não consigamos entender por que agem dessa forma e por que as suas crenças os condicionam a agir como agiram, é importante que nos mantenhamos neutros, sem nos deixarmos contaminar por possíveis julgamentos, que por sua vez podem acabar por ter um caráter tão fortemente discriminatório como de quem cometeu a discriminação.

Por um mundo mais igualitário

Se dissociarmos as emoções e as ações das “supostas raças”, poderemos verificar que no contexto global e das sociedades há pessoas menos favorecidas de todas as cores, de todas as “raças”, de todos os “credos”. A violência ocorre, diariamente, com todos os grupos sociais, com os mais e menos favorecidos, com brancos e negros. E para verificarmos a forte expressão da força da violência no mundo atual, basta fazer zapping pelos canais televisivos e aproximadamente 80% tem conteúdos, filmes e notícias sobre diferentes tipos de violência. A a violência acontece até dentro das biografias familiares, de pessoas do mesmo sangue, da mesma cor. Contudo, a intenção deste artigo não é suscitar um posicionamento contra o trabalho de conscientização realizado pelos ativistas, longe disso.

Este artigo é um convite à reflexão sobre o posicionamento que cada um tem de ter perante os diferentes contextos do mundo atual. A não discriminação começa pela ação de cada um. Ao lutarmos por um mundo mais igualitário, menos discriminatório, mais humano e feliz, sugiro que olhemos o mundo como um local composto por “Seres Humanos”, constituídos por diferentes emoções, que merecem, independentemente da cor, raça, credo, uma política organizada, um sistema organizado, que trabalhe por direitos igualitários, que favoreçam todo o sistema.

Deste modo, todos terão melhores condições de vida, em ambientes mais saudáveis física e emocionalmente, sem supremacia de direitos, sem transgressão da capacidade de expressão, sem supressão do desencadear do poder de construção que emana de cada um. Ou seja, somos todos iguais e a luta precisa de convergir a favor de um mundo mais justo, porque enquanto a nossa energia se centrar nas diferenças, correremos o risco de promover ainda mais diferenças. A nossa energia, contudo, se estiver centrada na construção, na harmonização, na conscientização individual e coletiva quanto a importância de não discriminar o outro a partir de julgamentos pré-concebidos, caminharemos para um mundo mais justo, igualitário e feliz. Um mundo onde a força expressiva se centre na meritocracia. Quem muito faz e luta colherá todos os bons frutos do seu empenho ao longo da sua vida.

 

Reliane de Carvalho
Hipnoterapeuta
Autora dos livros Menina dos olhos da alma e A luz dos meus olhos – Uma viagem interior
hipnoterapeutareliane@gmail.com

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