O que é a amizade?


Friends wearing asparagus stalks under their noses while standing in front of table full of pots, pasta noodles and vegetables

Neste Dia Internacional do Amigo respondemos à questão O que é a amizade? com a preciosa ajuda da  Psicoterapeuta e autora Rossana Appolloni.

Das muitas pessoas que temos oportunidade de conhecer ao longo da vida, nem todas ficam nossas amigas por mais simpáticas que sejam. Para se constituir uma verdadeira amizade, é necessário existir um impulso inicial espontâneo de atração e de empatia mútuas que proporcione o desejo de novos encontros, nos quais a partilha de opiniões, interesses, conhecimentos e divertimentos criem laços recíprocos de confiança, afeto, respeito e admiração.

 

A verdadeira amizade consiste em cada um de nós ser como realmente é e em aceitar o outro tal como ele é, sem interferir na sua vida privada e, sobretudo, sem querer moldá-lo às nossas conveniências. Quando a amizade é suficientemente sólida para proporcionar uma troca de confidências devemos obviamente dizer o que pensamos e dar os pareceres que nos são solicitados, mas é prudente evitar a intromissão em assuntos que não nos dizem diretamente respeito, pois a autonomia existencial de cada um é fundamental.

 

Quando necessária, a ajuda mútua é, sem dúvida, um dos principais fatores de uma sólida amizade.

Segundo vários estudos de Psicologia e de Antropologia, a amizade é um dos vínculos mais antigos do ser humano. Faz parte integrante da sua natureza, já que a vida em comunidade implica necessariamente a inclusão num grupo indispensável à solidariedade e entreajuda no confronto contra perigos comuns, a fim de garantir a sobrevivência da espécie.

 

Amizades menos nutridas

A companhia de amigos é uma forma privilegiada de socialização, de integração cultural, de desenvolvimento cognitivo e de construção da própria identidade. A manutenção de um círculo de amigos faz bem à saúde, uma vez que contribui para aliviar a tensão e o stress, criando a sensação de felicidade.

São vários os fatores que contribuem para solidificar uma amizade e facilitar o contacto entre as pessoas. A proximidade é, sem dúvida, determinante. Todos nos lembramos dos tempos da escola e da faculdade, em que a oportunidade de vermos todos os dias os colegas preferidos era um motivo de regozijo, de tal maneira que alguns desses colegas se tornam amigos para a vida. Mais tarde, o mesmo acontece com alguns colegas de trabalho. Na idade adulta, sobretudo depois do casamento e do nascimento de filhos, as responsabilidades familiares e profissionais ocupam-nos mais tempo e limitam a disponibilidade de encontros.

 

Calcula-se que um adulto passe três vezes menos tempo com amigos do que os adolescentes.

A frequência com que estamos com um amigo contribui de modo decisivo para a manutenção das relações de amizade. Quando deixamos de ver um amigo, mesmo que os laços se mantenham, eles são frequentemente enfraquecidos até se desvanecerem. Ter em comum determinadas preferências pessoais ajuda a reforçar e a manter os níveis de amizade. A partilha de assuntos tão diversos como a cultura, a religião, a política, o desporto, o sentido de humor, as férias e as viagens em conjunto aproxima os amigos e torna a troca de ideias e o envolvimento nas mesmas experiências particularmente gratificantes.

A confiança mútua é o pilar sobre o qual assentam todos os outros fatores da verdadeira amizade. É a confiança e a lealdade que permitem as confidências íntimas, os conselhos desinteressados, a entreajuda sem reservas. Quando um amigo se sente traído, manipulado ou abandonado, é difícil a amizade sobreviver. Há amizades que não duram para sempre. Quando alguém se começa a sentir incomodado na presença de um amigo, quando evita o contacto, quando perde a confiança e o respeito, é sinal de que a amizade chegou ao fim.

Não são só o tempo e a distância que nos fazem perder alguns amigos, visto que deixamos de ter relações de proximidade, familiaridade e disponibilidade. Mas, à medida que envelhecemos, torna-se cada vez mais difícil fazermos novos amigos, sobretudo quando não temos uma vida social ativa. A falta de amigos na terceira idade pode ser um fator de agravamento de estados de solidão, ansiedade e até depressão.

O que é a amizade?

Os diversos tipos de amizade

Existem várias tipologias de amizade. A mais conhecida é a de Robin Dunbar, professor de Psicologia Evolutiva da Universidade de Oxford. Segundo Dunbar, há, em média, um número limitado de amigos que podemos ter ao longo da vida. E como nem todas as amizades são iguais podemos dividir os amigos em cinco categorias ou círculos, que vão estreitando consoante o grau de intimidade e de importância que lhes atribuímos.

 

  • A categoria mais ampla é constituída pelos conhecimentos que encontramos ocasionalmente, seja no café, na vizinhança, no ginásio ou nas relações de trabalho, mas que não são propriamente amigos. O número médio de conhecimentos para cada pessoa ronda os 500. Os indivíduos com quem temos um mínimo de relacionamento e com os quais passamos esporadicamente algum tempo são a categoria mais ampla de conhecimentos, ou amigos ocasionais, que muda ao longo do tempo e que, em média, perfaz 150 pessoas. Este número varia consoante a personalidade de cada um. Os extrovertidos têm tendência para ter mais contactos e amizades, do que os introvertidos. A mudança de residência ou de local de trabalho faz com que esta categoria de amigos ocasionais evolua consoante as circunstâncias da vida.

 

  • A categoria seguinte é aquela que podemos realmente designar como sendo a da amizade e que, em geral, ronda os 50 amigos. Estes são mais estáveis, oferecem um maior grau de intimidade e confiança, do que os meros conhecimentos amistosos de cortesia ou ocasião. As relações de amizade pressupõem contactos e encontros regulares. Caso contrário, ao fim de aproximadamente seis meses, os vínculos emocionais tendem a enfraquecer, embora possam ser retomados. Enquanto temos uma vida social preenchida, os amigos vão-se renovando. Uma percentagem significativa destes amigos é constituída por pessoas que pertencem ao meio familiar e que, por esse motivo, tendem a oferecer maior estabilidade.

 

  • O núcleo dos chamados melhores amigos anda à volta dos 15. É neste conjunto que se encontram os verdadeiros amigos, que nos acompanham nos bons e nos maus momentos, com quem confraternizamos com frequência e partilhamos confidências e desabafos. Entre os verdadeiros amigos há, porventura, 5 que consideramos amigos íntimos. É com estes que mais nos identificamos, com quem melhor nos relacionamos e a quem recorremos em caso de necessidade. Os amigos íntimos têm a nossa inteira confiança e afeição, sendo indispensáveis ao nosso equilíbrio emocional.

 

Rossana Appolloni

Psicoterapeuta e autora dos livros Ousar Ser Feliz,

Do Sofrimento à Felicidade e Despertar.Libertar.Crescer.

www.rossana-appolloni.pt

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