A nossa democracia está em risco


Desperte! Está na 12ª hora!

O leitor deve ter-se apercebido do número impressionante de jornais e revistas em papel que desapareceram das bancas nos últimos anos, alguns com a promessa de continuarem em formato digital. Mas o digital não compensa (longe disso!) e a maior parte das revistas encerra por completo a sua atividade, com as repercussões que pode imaginar (desemprego, infelicidade, insatisfação, frustração).

A imprensa em papel do mundo inteiro corre sérios riscos de desaparecer. Estamos num momento de grande revolução tecnológica e, num futuro muito próximo, existe a possibilidade de não vermos revistas e jornais nas bancas.
A única salvação seria acrescentar mais qualidade, unicidade e valor aos títulos em papel para se destacarem do digital, e mais carinho, atenção e seletividade ao conteúdo de qualidade por parte do leitor. No entanto, já é muito tarde para isso, pois os leitores habituaram-se a ler tudo online e de forma gratuita. E sabe como é… Quando o produto é grátis, o produto somos nós…

As editoras, todas sem exceção, estão à beira do colapso, agora mais do que nunca. Ninguém fala abertamente sobre isto e todos preferem adotar a política da avestruz, enquanto esperam que a situação melhore ou que um milagre aconteça. Mas há um mal-estar geral nesta área
e mais ninguém acredita verdadeiramente numa mudança positiva nesta situação francamente desastrosa.
A imprensa em papel vende cada vez menos, transformando-se num círculo vicioso prejudicial a todos na área. Como as revistas e os jornais produzem e vendem menos, as gráficas imprimem menos e as distribuidoras distribuem também cada vez menos, sem falar da perda dos títulos que nunca mais verão a luz do dia. Ninguém os vai produzir, imprimir, distribuir e ler.

Como é que se pode ainda oferecer qualidade de conteúdo, de impressão e de distribuição, quando os recursos são mais escassos a cada ano que passa e se as equipas são cada vez mais reduzidas, estão mais desesperadas e preocupadas com
o seu futuro? A pandemia contribuiu de forma avassaladora para o “emagrecimento” brutal da nossa imprensa em papel.
Mesmo assim, existem imensos profissionais apaixonados pelo seu trabalho, que ainda conseguem surpreender ao partilharem conteúdos de qualidade, ao fazerem um trabalho sério, profundo, criativo e interessante que pode ajudar os demais a compreenderem um pouco melhor o nosso mundo complicado. No entanto, são submetidos a uma grande pressão vinda de todos os lados, mas principalmente do mundo digital.

O desaparecimento de revistas nas bancas não seria um problema se se encontrasse nas redes sociais uma alternativa decente, real, benéfica para todos os usuários. Infelizmente, vamos perceber porque é que o digital não só não representa uma alternativa aceitável, viável, mas sim uma real ameaça à nossa liberdade de expressão e democracia, assim como ao nosso desenvolvimento pessoal, mental e emocional.
Com a imprensa em papel sob ameaça, a nossa democracia está em risco. Porquê?
Porque hoje em dia, apesar das aparências enganadoras, vivemos numa ditadura dos média digitais. A ameaça chegou de modo silencioso, impercetível e instalou-se definitivamente na nossa sociedade,
à semelhança de um cancro terminal que só descobrimos quando já é tarde demais.

Os Big Data, as empresas tecnológicas, os ditos GAFA (Google/Amazon/Facebook/Apple), têm o monopólio no que diz respeito à liberdade de expressão, e não só. “Como assim?”, perguntará o leitor, se todos nós podemos dizer tudo o que nos vai na cabeça, de dia e de noite?
Como assim, quando temos todos estes gadgets “maravilhosos” para nos ajudarem a conversar, a consumir,
a trocar opiniões, a partilhar, a exprimir ideias e pensamentos, a divertir-nos,
a informar e a ser informado a toda a hora? Como assim, quando “eles nos ajudam” a fazer escolhas diárias e até
a pensar, ou a eleger os nossos políticos? Se nos ajudam a “compreender” a nossa sociedade, a “moldar” o nosso comportamento para o bem maior? Será?

Na verdade, tornamo-nos trabalhadores e consumidores ativos e obedientes. Somos alunos bem-comportados
e seguimos cegamente e sem questionar as diretivas impostas pelos algoritmos destas plataformas “monstruosas” que dominam a nossa vida a todos os níveis: social, económico, político, relacional, familiar e, o mais perigoso, a nível mental, emocional e comportamental de cada um de nós.
Quase que nos sentimos mal pelo tempo que “perdemos” a dormir, em vez de continuarmos incansáveis, ativos, empenhados… É assim que nos querem, num fluxo contínuo, a “otimizar” todos os instantes da nossa vida para o bem maior… Para o bem do Facebook.

Acredito que num mundo onde tudo o que fazemos online fica registado
e é vigiado, controlado e censurado ou interdito e bloqueado quando não convém aos GAFA, a nova geração digital, as nossas crianças ficam particularmente vulneráveis. Não sabe porquê?
Descobrirá na edição de dezembro, na segunda parte deste editorial.

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