Paz interior – Transformar emoções


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A tranquilidade pela qual ansiamos pode assemelhar-se ao estado de felicidade que pretendemos atingir no fim de algo. Muitas vezes, não sabemos muito bem onde se situa este algo, se é já ali ou se é no fim da vida. A certeza de que aqui estou e aqui vou continuar é tão assertiva, que dificilmente imaginamos o mundo sem a nossa presença. Será isto uma noção de continuidade mesmo “depois do depois”?

Atingir um estado de paz interior é o supremo bem-estar para o qual corremos a toda a hora na esperança de que o futuro momento seja aquele.

Funcionamos em prol do fim e jamais do caminho que percorremos. Toldados pelas emoções fisiológicas, num entrelaçado de físico e químico a que o nosso corpo responde, desprendemo-nos do estado meditativo (aquele com que nascemos) para idealizar apenas estados de bem-estar.

 

Julgamentos constantes

As emoções que respondem a todo o momento aos acontecimentos do nosso dia-a-dia funcionam como um filtro que nos impede de escrutinar o que está por detrás de tal atitude ou desempenho. Imaginemos o seguinte cenário: no nosso local de trabalho é-nos solicitado um relatório para ontem sobre determinado assunto que coloca em risco a nossa imagem perante as chefias e os colegas. Logo aqui existe um julgamento daquilo que o outro pensa de mim – “A minha imagem colocada em risco”.

Isto desencadeia o medo como emoção e a resposta que terei perante o mesmo será sofrimento, ou seja, automaticamente no momento em que me foi atribuída a tarefa desencadeei um processo de “não sou capaz”, “estão a julgar-me”, “estão a colocar-me à prova”, “e se eu falhar?”. Sempre o julgamento inerente a estas expressões.

Se eu não conseguir cumprir o tempo que foi estipulado para a entrega do relatório ou não contiver aquilo que é necessário e por esse motivo receber algum comentário, que vou automaticamente assumir como negativo, pensarei: “Eu bem disse que não era capaz”; “Eu sabia o que me estavam a fazer”, e por aí fora. A nossa imaginação é fabulosa neste campo. Esta falta de confiança naquilo que somos capazes transforma-se no processo meditativo ao confiar que tudo fica bem, mesmo que naquele momento, perante aquelas circunstâncias, nos pareça um obstáculo. O que se apresenta como um obstáculo torna-se agora uma porta aberta no futuro.

Paz interior - Transformar emoções

Meditar para libertar

O julgamento é algo inerente ao ser humano. Julgamos tudo a toda a hora: gostamos ou não gostamos; é bonito ou é feio; é gordo ou é magro; é bom ou mau. Temos direito a opinar, mas ficar agarrado a esse julgamento é nefasto, pois desencadeia emoções que poderão não ser benéficas para o nosso organismo. Ao aprendermos a libertar o julgamento, vamos entrar em aceitação do que é.

A meditação é um processo que se adquire progressivamente. Nascemos num estado meditativo, com uma mente de principiante, mas com o crescimento vamo-nos distanciando cada vez mais do mesmo e podemos reaprendê-lo.

Ao treinarmos diariamente este estado de meditação, o julgamento deixa de ter esta importância tão grande nas nossas vidas, as emoções reduzem o seu efeito de filtro e vivemos mais tranquilamente.

Desta forma, moldamos o nosso comportamento como a base da relação com o outro. Aprendemos a ser generosos para connosco e, consequentemente, para com quem nos rodeia. A generosidade para connosco é algo difícil de atingir, já que o que vemos é sempre externo e jamais olhamos para o que internamente temos para resolver.

Lutamos contra nós próprios. Na meditação, ao libertarmos o nosso organismo e mente desta luta constante, quebramos as amarras das emoções e deixamos fluir o nosso corpo como a água de um rio – não vale a pena contrariar a corrente, só vamos afogar-nos. Nos momentos desafiantes da vida, respirar, acalmar a mente, e só depois responder com todo o organismo traz bem-estar e saúde.

 

O poder da aceitação

Vejamos outro cenário: temos um empresário que vive 24 sobre 24 horas para a sua empresa em constante tensão com os investimentos, lucros e prejuízos. Os funcionários e todos os outros que o rodeiam têm de ter o mesmo ritmo e sofreguidão pelo negócio. Come muito, mas mal; o álcool faz parte do seu Eu social e tranquiliza-o; a dependência do trabalho é esgotante, ao ponto de colocar o seu organismo em risco, pois o tempo urge e nem para respirar o básico há possibilidade. Estamos perante alguém, cuja raiva como emoção surge com facilidade em momentos de irritação porque algo não corre como o esperado.

Meio caminhado andado, como se costuma dizer, para colocar em risco o sistema cardiovascular com um enfarte ou um acidente vascular cerebral. As emoções funcionaram como filtros cada vez maiores, ao ponto de lhe toldar a necessidade de que o seu corpo tinha de abrandar o ritmo e respirar. Entrou naquilo a que podemos chamar de piloto automático.

Novamente como base, temos a respiração a concretizar a pausa de que precisamos para continuar mais levemente o caminho. Aqui, é pedida a aceitação de que nem sempre tudo funciona como queremos. Aceitação de que num ritmo mais suave atingimos os mesmos objetivos. Até podemos externamente demonstrar que mantemos o mesmo desempenho profissional intenso, mas interiormente estamos em paz porque aceitámos que se o resultado for um pouco diferente também não há problema.

Moldar a nossa mente ao ponto de nos tornarmos mais pacientes contribui para reduzir a agitação interna e, consequentemente, libertamo-nos de sentimentos que já ganharam forma a partir de emoções repetidas num ciclo vicioso de luta interna. Atingimos um estado meditativo que nos leva além da gratidão por sermos tão seres humanos.

Vera Silva
Pediatra

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