Ser pobre é um entrave a felicidade?


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No outro dia, enquanto conduzia a caminho do Algarve, dei por mim a pensar naquilo que influencia o meu pensamento e, em geral, a minha maneira de ser e de estar na vida. Porque o modo como olhamos para a nossa vida, para nós próprios e para os outros é determinado por vários fatores, como experiências anteriores, as nossas origens, quem nos rodeia e, lá está, os media.

Constato hoje que as dicas dadas pelos meus pais me acompanharam e influenciaram de forma poderosa durante a vida inteira, sem sequer me aperceber. Lembro-me perfeitamente de quando o meu pai me dizia: “Não é uma tragédia errar se estás a aprender qualquer coisa que nunca fizeste anteriormente”. Ou ainda: “Nunca te esqueças: ninguém é melhor ou pior que tu”.

Penso que os meus pais fizeram um trabalho maravilhoso, pois as mensagens mais importantes que recebemos enquanto crescemos são aquelas que influenciam o modo como olhamos para nós próprios e isso é decisivo para o bem-estar interior, autoestima e desenvolvimento pessoal, social e mental.

As mensagens dos meus pais e até dos meus avós eram sempre direcionadas para o que eu era e não para o que eu fazia, o que teve um resultado positivo no meu desenvolvimento e evolução.

No entanto, apesar dos nossos pensamentos, crenças e atitudes serem influenciados por muitos fatores que moldam as nossas vidas, é bom saber que é necessário responsabilizarmo-nos pelos nossos atos, escolhas e atitudes. Temos sempre a opção de escolher aproveitar o que a vida tem para nos oferecer, incluindo as situações difíceis.

Hoje em dia, as pessoas não sabem lidar com as adversidades e deixam-se desequilibrar ao mais pequeno empurrão. Muitos perderam a noção do significado de algo verdadeiramente terrível. O escritor espanhol Rafael Santandreu escreveu um livro onde li um raciocínio que achei interessante.

Para saber se uma coisa que me aconteceu, ou poderia ter  acontecido, é má ou terrível, preciso de comparar essa situação com tudo o que poderia acontecer-me.

Como posso fazer isso? A única forma é posicionar a minha situação em relação ao mundo inteiro, a toda a comunidade de seres humanos, a todas as possibilidades reais que acontecem na vida, sem colocar de parte a morte, as doenças, as crenças, as necessidades básicas.

 Para ser o mais justo possível, será necessário abrirmo-nos às realidades do mundo, porque a situação de quem vive num ambiente diferente do nosso mostra-nos como estas pessoas vivem e mostra-nos quais são as necessidades básicas nos mais variados lugares do mundo: África, China, Índia, Ásia, etc.

Compreendemos assim que os seres humanos necessitam de muito pouco para serem felizes e percebemos que todos temos a capacidade de encontrar a Felicidade, independentemente do lugar onde nascemos e vivemos.

Se as pessoas em África conseguem viver felizes porque as necessidades básicas de alimentação são satisfeitas, isso significa que os seres humanos, em geral, podem ser felizes, uma vez satisfeitas essas mesmas necessidades.

No entanto, no mundo ocidental, somos muito mimados e ambicionamos mais do que apenas satisfazer as necessidades básicas. Pensamos em tudo de modo mais complexo e, muitas vezes, mais artificial, mas não necessariamente desprovido de sentido. Para nos sentirmos bem, queremos ter um apartamento, ir de férias, ter um carro confortável, roupa de qualidade, acesso à Educação e aos cuidados de saúde, conseguir um trabalho interessante, etc.

Contudo, entre o fantástico e o terrível existem vários níveis que passam pelo muito bom, bom, normal, mau, muito mau. Ao pensarmos desta forma, vamos rapidamente descobrir que, na maior parte das vezes, aquilo que nos acontece não é tão terrível como imaginamos.

Ter em mente uma linha de avaliação do que nos acontece na vida, colocando tudo em perspetiva, pode ajudar-nos imenso a resolver diversas situações que consideramos insuperáveis.

 Quando observamos o que acontece na maioria dos países do mundo – as guerras, as atrocidades, a fome, as doenças, os desastres naturais, as torturas, as injustiças, a falta de liberdade, a corrupção, a tirania, a falta de democracia, etc. – podemos questionar-nos se um  ordenado reduzido ou a perda de emprego nos impede mesmo de viver as nossas vidas ou, mais concretamente, se podemos considerar isso uma adversidade que coloca em perigo a nossa vida, impedindo-nos de fazer o que consideramos importante: comer, namorar, procurar atividades que nos divirtam, ler, etc.

Se é verdade que em Portugal também existem casos de pessoas que lutam pela sobrevivência, também é verdade que a maioria não está sob ameaça real de não poderem sobreviver. As pessoas agarram-se a medos que as levam a confundir desejo com necessidade, um grande erro que, segundo os profissionais, está a origem da insegurança, insatisfação, ansiedade e depressão.

Provavelmente, receberei críticas de pessoas que não concordam comigo, mas por mais chocante que possa parecer, é frequente exagerarmos quando referimos a importância das adversidades. Especialistas explicam que rever o sistema de valores, as crenças mais básicas acerca do que vale ou não vale a pena é um exercício muito saudável, porque é possível que a nossa filosofia de vida esteja a dificultar o nosso percurso.

Chegou a hora de abrir a alma e a consciência para novas maneiras de encarar a vida e respetivos acontecimentos, deixando de ser escravos de tudo o que consideramos imperiosamente necessário, libertando-nos dos nossos medos irracionais, muitas vezes imaginados, de perder a casa, de ver o salário cortado, de perder o emprego, de adoecer, de não aguentar uma ou outra desgraça, de não estar à altura dos desafios, de não ter o que comer, etc.

Não é um exercício fácil, mas é muito necessário para não perdermos o controlo da nossa vida e sofrermos desnecessariamente. São estas ideias que conduzem ao desenvolvimento de emoções exageradas que, por sua vez, abrem a porta a uma invasão de sentimentos ameaçadores e à perceção de perigos inexistentes com pouco ou nenhum fundamento.

Porque é que não devemos ter medo? Porque vivemos num mundo impermanente, onde nada é garantido e nada é para sempre, a começar pela nossa vida, pois um dia vamos morrer e, comparado com isso, nada poderá ser mais dramático. Então, para quê sofrer por antecipação e não aproveitar o tempo que temos à nossa disposição para fazer o que gostamos e, tal como dizia Gandhi, acreditar que uma perda, qualquer que seja, não terá necessariamente de afetar a nossa felicidade e bem-estar?

Como bem sabem, nasci na Roménia e vivi lá a maior parte da minha infância e adolescência. Com a subida ao poder de Nicolae Ceausescu, em 1965, o país passou de um período de grande prosperidade – e, até certo ponto, de liberdades individuais e sociais – para um regime baseado numa dinastia socialista com uma política atroz de contenção para poder pagar a dívida externa ao FMI, o que causou inúmeras privações e grande sofrimento ao povo romeno.

O direcionamento de todos os produtos para as exportações resultou num racionamento que ia de pão às frutas e vegetais, passando pelos produtos básicos e de primeira necessidade, como laticínios, açúcar, óleo, farinha, carne, peixe e até papel higiénico e sabão, que raramente se encontravam à venda e pelos quais havia constantemente filas intermináveis. Ceausescu impôs um forte programa recessivo, cortando totalmente as importações, racionalizando o consumo de eletricidade, gás, água quente e aquecimento, e aumentando o incentivo à produção agrícola e à indústria em geral, para que se exportasse o máximo possível. Raramente existia carne disponível para compra e quando existia era apenas o que não se exportava: pescoços e pés de galinha, ossos de bovino, pés de porco.

As famílias ficaram limitadas à utilização de uma lâmpada de 40W por apartamento e o aquecimento foi reduzido ao mínimo suportável, com temperaturas a atingirem os -27ºC no inverno. Lembro-me de ver o meu pai instalar a bateria do carro na sala para termos mais luz e fazermos os trabalhos da escola.

Quando pensávamos que já não era possível viver naquelas condições, a partir de 1984/85 reforçou-se ainda mais o aparelho de repressão e a rigidez disciplinar do centralismo político, cultural e económico, de planeamento familiar e de culto à personalidade de Ceausescu e à sua família.

A população romena tem passado por duros e sofridos tempos com o seu tradicional estoicismo. Até nos anos de maiores carências e restrições, como os que se viveram antes da queda do regime Ceausescu, sobretudo entre 1985 e 1989, existia aquilo a que chamamos Felicidade. Em plena repressão comunista, no seu período mais negro, que viria a revelar-se terminal, os jovens continuaram a ser jovens, os casais continuaram a namorar, a casar e a ter filhos e a vida continuava a ter momentos bons e menos bons, com a sua graça e as suas piadas, e a esperança inabalável de que um dia tudo iria mudar e melhorar.

Os romenos têm um certo jeito malandro e sabem fazer piadas, mesmo quando estão na pior fase. Ou, provavelmente, fazem piadas porque estão na pior fase. Para contornar as dificuldades, o povo criou uma série de lendas urbanas, como crónicas do regime. As pessoas exprimiam a sua revolta através de piadas sobre tudo e todos, até sobre os próprios romenos e a sua situação trágica e, aparentemente, sem solução: ria-se às gargalhadas do “Conducator”, do partido Comunista, da incapacidade de sair da situação, da pobreza que ameaçava o país e das falhas de um regime isolado do mundo e da realidade. As piadas serviam de escapatória para o imaginário coletivo romeno e era uma forma poderosa de amenizar a situação e adicionar um pouco de sarcasmo e bom humor a uma realidade cruel e insuportável.

Para exorcizar o rigor do Governo, milhares de piadas circulavam de boca em boca, escapando assim à censura oficial de um país controlado pela “Securitate”, a terrível polícia da Ditadura que assustava qualquer um com as possíveis represálias.

Mas nem tudo era mau, pois tínhamos acesso gratuito à Educação e a cuidados de saúde; o desemprego era praticamente nulo e, por mais incrível que pareça, o que nos faltava não era dinheiro, mas sim produtos de primeira necessidade.

É verdade que não tínhamos programas televisivos, pois só havia duas horas de televisão por dia, entre as 20h00 e as 22h00, e estavam repletas de propaganda que elogiava o regime, o “Génio dos Carpatos” e a sua família. Era por isso que os romenos procuravam divertir-se de outras maneiras, fazendo desporto e organizando pequenos encontros entre amigos, mas a leitura era o passatempo favorito de crianças, jovens, idosos, licenciados, universitários ou trabalhadores. A leitura era a nossa riqueza suprema, o nosso refúgio dourado, o nosso melhor amigo para o bem e para o mal, e ninguém podia tirar-nos esse prazer único, sem o qual teríamos tido imensas dificuldades em ultrapassar os desafios diários.

Durante todos estes anos, a semana de trabalho ou de escola era de seis dias e só tínhamos o domingo para descansar. Ninguém se queixava, apesar de sabermos que as coisas eram diferentes no Ocidente, onde, na nossa opinião, as pessoas beneficiavam de miniférias todas as semanas.

Como não havia música estrangeira na rádio ou na televisão, e para escapar às canções patrióticas que se transmitiam em cadeia no único posto de rádio e canal televisivo, os romenos ouviam cassetes de música clássica e procuravam filmes que circulavam no mercado paralelo para verem em família ou entre amigos com um prazer que dificilmente se consegue descrever.

Havia uma solidariedade imensa apesar de tudo e ninguém se destacava verdadeiramente, pois os salários eram sensivelmente iguais. Não havia razão para invejar o vizinho e todos estavam unidos contra o inimigo comum: o regime. O único critério que diferenciava as pessoas era o nível cultural, os estudos, que assumiram uma importância primordial na vida dos jovens e das suas famílias. O único modo de exercer um trabalho interessante, mesmo que fosse pouco remunerado, era estudar para viver os sonhos e dar um sentido à vida.

De facto, percebo agora que se não fosse a censura da liberdade de expressão, o medo das represálias e o stress contínuo de ter de procurar e fazer stock de alimentos de forma constante, a nossa vida não seria tão má. Não conhecíamos outra realidade para fazer comparações e, apesar de não existir grande conforto, não nos faltava a alegria, a vontade imparável de aprender e de conseguir uma vida cheia de sentido. Nunca, mas nunca deixámos de ter esperança num futuro melhor, incluindo os mais idosos.

 Apesar da pobreza, as pessoas não passavam fome, pois encontravam-se sempre formas de obter alimentos no mercado paralelo, através de familiares, conhecidos ou amigos dos amigos agricultores, etc., assim como roupa e outros acessórios necessários a uma vida decente. A minha mãe produzia tudo em casa: pão, queijo, doces, sabão, manteiga, salsichas, e não era a única, pois os romenos são conhecidos por serem cozinheiros exímios e saberem fazer de tudo.

Não tínhamos uma vida abastada e de luxúria, mas também não nos faltava nada para estarmos felizes. Ao olhar para trás, apercebo-me de que o ser humano necessita de muito pouco para estar bem e que o conforto não é uma condição sine qua non para sermos felizes, mesmo quando os media tentam convencer-nos do contrário.

Aprendemos rapidamente que o conforto não fazia parte dos fatores indispensáveis para o nosso bem-estar e que existiam meios de contornar as dificuldades diárias, concentrando-se pouco no que nos faltava para desfrutar do resto. Sabíamos intuitivamente que se dávamos demasiada importância ao conforto, mais dia, menos dia, acabaríamos frustrados e, certamente, infelizes. E não era isso que os romenos pretendiam, bem pelo contrário.

Vivemos agora em Portugal uma situação dificílima, parecida, mas temos de reconhecer que é muito melhor. Não se compara ao que os romenos experienciaram durante anos. A ideia não é abrir mão de tudo o que foi conquistado e adquirido, mas sim encarar as adversidades como parte integrante da nossa vida e aceitar o que é mais forte que nós próprios, o que não podemos alterar e controlar. Não se trata de voltar a viver como os homens das cavernas, até porque já temos outra consciência. Sabemos surfar nas ondas das adversidades em tempos de tempestade.

Consequentemente, quando pensamos que a vida é uma desgraça e que não aguentamos tantas dificuldades e adversidades, podemos fazer a seguinte pergunta: o que aconteceu, ou o que poderia ter acontecido, tem mesmo uma importância vital para mim e para quem me rodeia?

 

 

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