Shiatsu: uma perspetiva holística sobre a saúde da mulher


Woman during professional head massage

Neste artigo transmito a perspetiva da medicina oriental, em particular da medicina tradicional chinesa (MTC) e do shiatsu sobre a saúde da mulher, tendo como objetivo criar outras possibilidades de interpretar a experiência de ser mulher nesta sociedade ocidental.

Como mulheres temos desafios específicos em relação ao nosso bem-estar e saúde. O nosso equilíbrio tanto a nível físico como mental e emocional está intimamente ligado ao ciclo natural menstrual e às mudanças hormonais que ocorrem ao longo da nossa vida. Vivemos numa sociedade que não reconhece e apoia a importância da nossa natureza cíclica e das transições naturais que são parte intrínseca do nosso desenvolvimento humano. Como consequência, temos dificuldade em confiar nas mensagens dos nossos corpos e em conectar e aceitar de um modo positivo os nossos ciclos femininos e as mudanças resultantes.

É frequente sentirmos que o período menstrual é algo incómodo, uma inconveniência, que traz consigo dor e desconforto, afetando as nossas rotinas e obrigações sociais. Provavelmente, não o sentimos como algo natural e uma oportunidade de desenvolvermos uma relação mais íntima com o nosso corpo e as nossas necessidades. A maternidade é muitas vezes sentida como uma interrupção no ritmo das nossas carreiras e talvez valorizemos menos a oportunidade de crescimento pessoal, autodescoberta e a experiência do amor incondicional.

A menopausa é vista como o fim da nossa juventude, não como o início de uma nova fase em que podemos explorar novas liberdades e embarcar num caminho mais dedicado ao autoconhecimento e espiritualidade. A sexualidade feminina está associada à juventude e beleza terminando quando envelhecemos, enquanto na medicina oriental a energia sexual está sempre presente e é apenas um dos tipos de energia que flui através de nós, contribuindo para a nossa energia vital, saúde e longevidade.

 

O shiatsu como terapia holística

O shiatsu, sendo uma terapia oriental, aborda a saúde da mulher numa perspetiva holística – considerando a mulher no seu todo físico, mental, emocional, bem como as condicionantes do ambiente em que vive. Tendo como base a medicina oriental e como objetivo restaurar o nosso equilíbrio e capacidade intrínseca de autocura, considera a importância dos nossos ciclos naturais para otimizar a saúde.

Esta terapia é efetiva em várias situações específicas à saúde feminina. O shiatsu como técnica terapêutica tem a particularidade de se fundamentar em dois aspetos curativos que se complementam e o tornam muito efetivo. Baseando-se nos princípios da medicina chinesa, utiliza os meridianos de energia e pontos de acupressão desta medicina milenar, para fortalecer e equilibrar a nossa energia vital.

Sendo ao mesmo tempo uma massagem, o shiatsu introduz o elemento terapêutico do toque e da relação de empatia que se estabelece entre terapeuta-cliente, os quais têm um profundo efeito no sistema nervoso autónomo (que rege as funções dos órgãos e sistemas fisiológicos), o que por sua vez fortalece e ativa as nossas capacidades inatas de cura.

Além de atuar ao nível físico, por exemplo, fortalecendo o sistema imunitário, um dos aspetos mais surpreendentes é o efeito a nível mental e emocional. A libertação de energia vital bloqueada gera maior claridade mental, tornando-nos mais conscientes dos aspetos da nossa vida que nos limitam e debilitam (medos, ansiedades e atitudes). Ganhamos assim poder para transformar a nossa realidade.

Cuidar da nossa saúde significa cultivar o amor-próprio, respeitando os nossos corpos e ritmos naturais. Bem como tornar-nos conscientes e responsáveis nas nossas escolhas e em como estas podem apoiar ou bloquear o bem-estar físico e emocional. O primeiro passo em qualquer processo de cura é reconhecer e dar prioridade às nossas necessidades, aceitar que podemos melhorar e aprender através do próprio processo de cura.

shiatsu

Energia vital e saúde

Ainda que a vida da mulher tenha mudado muito nos últimos 2 mil anos, os ciclos naturais que regem os nossos corpos permanecem os mesmos. Em algum momento da nossa vida experimentámos (ou provavelmente experimentaremos) irregularidades menstruais, períodos dolorosos, infeções vaginais ou urinárias, sintomatologias de menopausa. Entender os nossos ciclos naturais e os sinais de desarmonia é uma ferramenta poderosa que possuímos como mulheres, para podermos fazer escolhas que beneficiem a nossa saúde, aumentem a nossa vitalidade e reduzam a probabilidade de adoecermos. Por esta razão, a ginecologia é uma das especialidades mais antigas e respeitadas na medicina oriental!

O início da menstruação, a gravidez e a menopausa são considerados, na medicina oriental, fases de transição primordiais na vida da mulher, nas quais ela tem a oportunidade de fortalecer a sua saúde ou o oposto, caso haja pouco cuidado com o estilo de vida e o cuidado próprio.

 

Período menstrual

Cada mês desde jovens experimentamos algo natural, cíclico e intrínseco à nossa natureza, que de algum modo entra em conflito com o que a sociedade espera de nós, isto é, que mantenhamos o nosso nível de atividade, respondendo às nossas responsabilidades e exigências sociais, sem manifestar sintomas físicos ou emocionais. A nível médico, irregularidades menstruais são vistas como disfunções, no entanto, a medicina oriental tem uma perspetiva diferente sobre o nosso ciclo criativo biológico.

A medicina chinesa denomina a menstruação, ‘água celestial’ (tian gui), pois não é apenas a eliminação de material das paredes do útero, mas contém também a nossa energia vital. O início da menstruação é considerado uma fase de transição fundamental, marcando o início de uma nova relação com o nosso corpo e emoções.

A regularidade, duração e a quantidade do fluxo menstrual, bem como as suas características e a existência ou não de dor, refletem o nosso estado geral de saúde. Assim, qualquer perturbação relacionada com o ciclo menstrual, segundo a MTC, é um sinal de desequilíbrio energético (desequilíbrio na circulação de energia nos meridianos e órgãos do corpo). Estes desequilíbrios, que muitas vezes se manifestam naquilo a que chamamos síndrome pré-menstrual (SPM), são relevantes para a saúde da mulher e se não forem tratados, podem mais tarde estar relacionados com o aparecimento de nódulos, quistos, tumores, problemas de fertilidade, entre outros.

A sabedoria oriental dá grande importância e atenção ao autocuidado durante esta fase em que estamos mais sensíveis e vulneráveis. Recomenda-se especial atenção à dieta durante o período menstrual, evitar o trabalho excessivo e a exaustão física e emocional. Qualquer perturbação do ciclo menstrual pede que consideremos o nosso estado emocional, as causas de stress, preocupação ou frustração, que podem potencialmente impedir o livre fluxo da nossa energia vital e considerar como lidar positivamente com estas causas.

 

Fertilidade, gravidez, parto e recuperação pós-natal

Do ponto de vista da MTC, a nossa energia vital é também responsável pela nossa capacidade reprodutiva. É nos Rins (1) que armazenamos a reserva de energia vital, incluindo a energia necessária para a conceção.

O estilo de vida moderno pode representar um desafio à conceção natural. Cada vez mais tendemos a ter o primeiro filho mais tarde, estamos envolvidas em carreiras profissionais ou trabalhos que exigem demasiado de nós a nível físico e emocional, trabalhamos em excesso, descansamos pouco e mal, descuidamos uma alimentação equilibrada e nutritiva. Todos estes são fatores desfavoráveis quando queremos engravidar (tanto para a mulher como para o casal).

Do ponto de vista da medicina oriental a nossa possibilidade de conceção depende da qualidade e quantidade da energia vital do casal, que por sua vez também influencia a saúde e vitalidade dos nossos filhos. A saúde do bebé está ligada à saúde dos pais no momento da conceção. Assim, se a energia vital dos pais é deficiente devido à idade, excesso de trabalho, alimentação inadequada, isto pode afetar tanto a conceção como o desenvolvimento do feto durante a gravidez.

Quando planeamos engravidar é importante dar atenção a como podemos fortalecer e harmonizar a nossa energia vital e saúde. Por vezes, sentimos dificuldade em dar prioridade às nossas necessidades, pois estas entram em conflito com exigências profissionais ou familiares e a nossa sociedade não valoriza estas necessidades. Conflitos a nível emocional (por exemplo, stress, ansiedade, frustração) podem causar bloqueios energéticos nos meridianos e órgãos do corpo que se manifestam em sintomas físicos ou esgotam a nossa vitalidade, afetando tanto a possibilidade de engravidar como de manter a gravidez.

O paradigma de assistência médica durante o parto ainda está pouco centrado na experiência e opções desejadas pela mãe e casal. Estar informadas quanto ao processo de parto e às opções que temos, ajuda-nos a sentir mais confiantes e mais assertivas em relação ao que é importante para nós.

A recuperação após o parto não recebe a devida atenção na nossa sociedade, no entanto do ponto de vista da medicina oriental, este é um período crítico para a saúde futura da mãe. Devido à perda de sangue e energia que ocorre como resultado da gravidez e parto, nos 40 dias que se seguem estamos mais vulneráveis. Durante estes 40 dias (denominado o ‘mês de ouro’ na China) existe o potencial de curar certas doenças ou debilidades prévias à gravidez. Neste período é importante repor a energia vital consumida e fortificar o corpo, essencialmente através de descanso e uma boa nutrição. A perda de sangue e o esgotamento energético podem causar ansiedade, dificuldade em dormir, falta de energia e depressão.

 

Menopausa

A menopausa não é apenas o fim dos períodos menstruais, mas um período de transição nas nossas vidas, que decorre durante vários anos. Com a idade a nossa energia vital diminui, pois a sua produção é mais lenta. Para conservar esta preciosa energia, os períodos menstruais tornam-se irregulares e, finalmente, cessam. A menopausa é a manifestação da sabedoria dos nossos corpos – evitando a perda de energia vital através do ciclo menstrual, para assim reduzir o processo de envelhecimento. Após a menopausa, uma vez que temos mais energia disponível (a energia que não está a ser utilizada na manutenção do ciclo menstrual), experimentamos um aumento de vitalidade e o despertar de novo potencial, a ‘segunda Primavera’ (2).

A menopausa é uma etapa importante que nos permite aceitar o processo de envelhecimento e a entrada numa nova fase da vida.

Enquanto, nos anos que antecedem a menopausa estamos ainda muito focadas na carreira, família e relacionamentos, esta nova fase coincide muitas vezes com uma redução das responsabilidades de cuidadora, abrindo-nos novas possibilidades de descoberta de nós próprias, do nosso poder e autoestima.

A menopausa pode ser uma transição suave sem sintomas ou perturbações, mas para muitas mulheres esta fase traz efeitos secundários indesejados e muitas vezes sentimentos de perda. A tristeza, os desconfortos e emoções várias não são o inimigo a erradicar. O desafio que se nos apresenta é o de abraçar as frustrações, os sentimentos de perda, as mudanças inevitáveis e criar uma nova relação com nós mesmas, sentindo-nos mais humanas e fortes. É possível que nos demos conta pela primeira vez, como as nossas atitudes em relação ao envelhecimento, beleza, expetativas sociais, etc., estão influenciadas pelas normas da cultura em que vivemos.

Esta nova fase da nossa vida é a altura ideal para explorarmos um dos conceitos essenciais da filosofia oriental – procurar a harmonia nos vários aspetos da nossa vida e dar à luz um novo eu.

 

Notas:

  • Na medicina chinesa os Rins (bem como os restantes órgãos) englobam o conceito fisiológico e anatómico similar ao ocidental, mas também o conceito oriental em que cada órgão está conectado a meridianos de energia e tem funções energéticas e nível mental, emocional e espiritual, bem como físicas.
  • Segunda Primavera é o nome dado à menopausa na MTC, para representar a renovação de energia e oportunidades na vida da mulher.

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Por Cristina Gondar

Terapeuta de Shiatsu, formada pelo Shiatsu College-London, tendo-se especializado em ‘Shiatsu e Cuidados Maternos’ com Suzanne Yates em Bristol, Inglaterra

Professora de yoga, incluindo yoga na gravidez e pós-natal.

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