Sonhos: Mensageiros da alma?


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Os sonhos têm permanecido como enigmas à vontade humana de os interpretar. Não deixam de nos fascinar, levando a interpretações variadas: inspiração dos deuses, mensagens do além, premonição, entre outras.

 

A interpretação dos sonhos assumia grande importância nas antigas tradições espirituais e religiosas, as quais se socorriam de profetas e adivinhos para acederem às mensagens. Na sua maioria, os sonhos, tidos como mensageiros divinos, podiam curar ou guiar a vida privada e coletiva. A Psicologia considera-os manifestações do inconsciente, no sentido de atingir o equilíbrio, e a Espiritualidade aponta uma dimensão metafísica dos sonhos: a sua relação com a alma, o vínculo com a memória universal, o plano da consciência onde tem a sua origem.

 

Os antigos e os sonhos

No Antigo Testamento, quase todos os sonhos assumem um cariz profético e místico. No início do Cristianismo, sonhar era uma via para a espiritualidade, ao ponto de exortar os fiéis a “não fecharem a porta à luz dos sonhos”. No entanto, foi-se mostrando refratária ao estudo dos sonhos, apelidando-os de perigosos e supersticiosos.

No Egipto, existem papiros sobre sonhos, acompanhados de interpretações. A descoberta da Esfinge deve-se a um sonho de Tutmosis IV, sendo que os sonhos eram veículos iniciáticos nas escolas de mistérios. No Islão, de religião essencialmente profética, os sonhos assumem importância. Sabia que a missão de Maomé foi revelada através de um sonho?

Mas foi a Grécia Antiga, com a filosofia de Platão, que mais destaque deu aos sonhos. Artemidoro de Daldis compilou mais de três mil sonhos e os templos de Asclépio, deus da medicina, realizavam rituais para que os sonhos curadores pudessem ocorrer.

No Induísmo, os sonhos pertencem a um dos quatro estados de consciência: vigília, sonhos, dormir sem sonhar, estado de turiya ou consciência pura. Já os tibetanos – Milarepa – controlam os sonhos como ninguém! Para os aborígenes, os sonhos influenciam a vida da tribo. Os Senoi, da Malásia, começam o dia a relatar os sonhos em família e os ameríndios isolam-se para terem sonhos que possam guiar as almas e curar os doentes.

 

Desejos recalcados?

Freud postulou que a função dos sonhos é descarregar impulsos reprimidos e garantir um sono reparador. Impulsos inconscientes de natureza primitiva e instintiva. Este método psicanalítico permitiu abordar o sonho como a expressão de desejos/medos inconscientes, socialmente inaceitáveis, e até pessoalmente intoleráveis, mascarados por uma linguagem/imagem simbólicas, contendo mensagens/informações absurdas, caóticas e facilmente esquecidas ao despertar. Porém, esta forte energia recalcada, desencadeia emoções, sentimentos e comportamentos adaptativos que podem transtornar o indivíduo. Por serem reprimidos, expulsos da consciência, podem ser fonte de neurose e infelicidade. De qualquer forma, o modo como os sonhos se “constroem” é através do simbolismo e representam motivos inconscientes.

 

Sonhar é criar?

O investigador francês Michel Jouvet cita os Upanisads da mitologia hindu, que distinguem a “alternância da vigília do sono sem sonho e do sono com sonho. O que é o mesmo que dizer que o sonho é um estado tão distinto do sono como este é da vigília. Outros afirmam que a força primária do sonho é fisiológica, não psicológica, não assente na dinâmica conflitiva freudiana. Os sonhos surgem em espécies como necessidade de “programar e reprogramar sistemas de processamento de informação” – aprendizagem e memória. Tal como os computadores, este mecanismo atua nas horas de menor uso, ou seja, durante o sono.

Stephen LaBerge, psicofisiologista, afirmou: “Os sonhos têm mais em comum com poemas, do que com cartas”, ou seja, não têm de ter conteúdo “prático”, necessariamente. Como lembra, poiesis, que deu origem à “poesia”: “A essência de sonhar é mais próxima da criação, do que a comunicação”.

Interpretar sonhos

Interpretar sonhos

Os símbolos são a linguagem pela qual se expressam os sonhos. Não existem manuais que digam o que cada símbolo significa, pois, os símbolos não são universais, ao contrário dos Arquétipos. Estes aparecem no sonho como padrão de comportamento e representação do que somos.

Em O Homem e seus Símbolos, Jung escreveu: “A função geral dos sonhos é tentar reestabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico que subtilmente reconstitui o equilíbrio psíquico total”. A “mensagem” não tem conteúdo moral, senão o reconhecimento da realidade interior: “Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão”. Jung chama “processo de individuação” à via de autoconhecimento/autorrealização, que implica seguir os modos operacionais do inconsciente, sendo os sonhos o instrumento para início do processo.

O inconsciente pode “trazer” situações não vividas através de sonhos que, por isso, são premonitórios. Não se trata de visualizar o futuro, mas da preparação simbólica para algo que irá acontecer e que já está em processo. Na Psicologia Analítica, analisar um sonho requer contexto e profundidade, não tendo respostas estereotipadas, mesmo que partilhe da simbologia universal do Inconsciente Coletivo. Existe um protocolo que, uma vez aplicado, poderá conferir alguma luz ao significado simbólico. Nem todos os sonhos são iguais. Há que saber distingui-los.

 

Espiritualidade e sonhos numinosos

 A experiência numinosa é a relação do indivíduo com algo que transcende o racional e impacta o seu modo de vida, um “despertar” ou “revelação”. Para Jung, a transcendência que o sonho numinoso implica está ligada à psique individual, podendo ter a conotação de sagrado e divino. A consciência, ou parte dela, pode transformar-se e curar, ao entrar em contacto com essa realidade maior em nós, não explicável. Assim sendo, na psicologia junguiana, os sonhos vêm compensar e equilibrar, e podem apresentar respostas ou curar a vida do sonhador.

 

Serão os sonhos mensagens da alma? Tudo indica que sim.

 

Dulce Pombo

Jung Analitic Psicology Studies   

Phd Sociology

Life Mentor

www.dulcepombo.pt

91 2099623

Artigo publicado originalmente na revista Zen Energy Agosto, nº151.
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