Todos os caminhos vão dar ao cancro (Parte III)


"Made in China" on label of a shirt

(Vestuário – Made in Asia: chique, barato e… tóxico)

Na Europa, a utilização do nonylphenol é interdita desde 2003 na indústria têxtil. No entanto, com a internacionalização da fabricação da roupa e dos sapatos, em Bangladesh, na Índia, China, Vietnam, Filipinas, etc., já não há nenhuma segurança quanto à proveniência da roupa e implicitamente da utilização dos produtos tóxicos interditos na Europa.

Na reportagem que vi na televisão belga, em Abril, mostraram crianças a trabalhar no Hazaribag, um distrito da capital Dhaka de Bangladesh, especializado em tinturas. Crianças entre os 10-14 anos trabalhavam numa atmosfera dantesca, com temperaturas acima dos 50ºC, saturada por emanações tóxicas, produzidas pelos produtos químicos utilizados na tintura das peças de roupa, cintos, sapatos, vestidos ulteriormente com muito orgulho, fé e confiança pelos milhões de ocidentais, muitos deles, crianças da mesma idade a serem escravizados na tinturaria. Por uns miseráveis 25€ por mês, as crianças trabalham 7 dias por semana em condições bem piores que os reclusos mais ferozes das prisões de alta segurança do mundo, descalços, sem escrúpulos, sem proteção, mergulhados no banho de mercúrio e outros produtos altamente mortíferos.

 Sabia que as calças, as t-shirts, os vestidos e os sapatos contêm um número angustiante de substâncias químicas perigosas para a nossa saúde?

Algumas peças, se calhar não todas, mas quem sabe quais, como cintos, sacos e sapatos são ensopados de um produto muito cancerígeno que é o crómio 6. Hoje, a indústria têxtil e de sapatos utiliza milhares de produtos químicos e muitos provocam irritações, alergias ou prurido. Só os ingénuos, inconscientes ou ignorantes não se perguntariam do impacto real desses produtos para a nossa saúde e para o ambiente. Mas, não somos todos um pouco indiferentes e participantes ativos ou passivos a esta situação desastrosa?

As primeiras vítimas são, com certeza, as crianças que produzem estas peças de vestuário, que trabalham em condições tóxicas e que manipulam substâncias cancerígenas, sem proteção. Estas peças são perigosas para as pequenas mãos que as confecionam, mas também pelos pequenos seres, inofensivos, que as vestem e que são as nossas crianças que tanto amamos.

Há já alguns anos que a China não consegue satisfazer a procura de pele. E é assim que Bangladesh se tornou num dos exportadores mais importantes de pele do mundo. Neste país, as regulamentações, a proteção do meio ambiente e dos trabalhadores são inexistentes. Ignorando completamente a toxicidade dos produtos que utilizam diariamente, os trabalhadores de Bangladesh manipulam-nos, na maior parte do tempo, mãos e pés nus, sem máscara de proteção.

A lista dos produtos químicos perigosos para o homem e o ambiente utilizados na indústria têxtil e de pele é longa. Vai desde o sal de crómio, do qual o crómio 6, cancerígeno, se inalado e produzindo alergias no contacto com a pele, passando pelas substâncias orgânicas cloradas que atacam as vias respiratórias e acabando com o oxídio de etileno, que põe em perigo o património genético ou, ainda, os metais pesados, como o alumínio, o níquel, o chumbo, o mercúrio, os produtos com base em cianúria, etc.

E há ainda pior: o que não é utilizado é queimado, misturado com ácido e acrescentado aos alimentos dos animais e dos peixes que acabam depois nos nossos pratos. Nestes países, as águas usadas, carregadas de produtos tóxicos são derramadas nas ruas, sem tratamento algum, poluindo pouco a pouco as cidades, os rios e as terras agrícolas à volta.

80 Mil milhões de peças de roupa são fabricadas no mundo todos os anos. Para conferir-lhe propriedades chamativas (brilho, cor, doçura, facilidade de passar a ferro), os fabricantes utilizam moléculas químicas dos quais algumas são importantes perturbadores endocrinológicos e metais pesados. Estas moléculas envenenam os trabalhadores, os consumidores e espalham-se no meio ambiente, alerta a OMS (Organização Mundial da Saúde), a Greenpeace e outros organismos internacionais há já muitos anos.

Sabia que há roupas tóxicas que alteram a forma como as hormonas naturais atuam no corpo? As peças de vestuário são contaminadas com produtos químicos que, ao entrar em contacto com água, se fracionam e formam substâncias que alteram a forma como as hormonas naturais atuam no corpo humano.

Greenpeace lançou há já vários anos uma campanha feroz para que o mundo da moda pare de usar produtos químicos tóxicos nas suas confeções, que vão desde a roupa íntima, aos calções, camisas, vestidos, enfim, tudo. Marcas, como Zara, Calvin Klein, Marks & Spencer, comprometeram-se no seguimento desta campanha lançada pela Greenpeace, em 2012, no sentido de acabar até 2020, com o uso de substâncias tóxicas em tecidos. Mas, muitos países não aderiram à proibição destes tóxicos que assim continuam a ser disseminados através do mundo, pela água, pelo ar, pelos alimentos, etc. Em apenas 100 anos, o nosso organismo tornou-se um depósito de lixo tóxico e o próprio homem é o culpado. (Continua…)

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