Todos os caminhos vão dar ar cancro (Parte II)


Lembra-se, com certeza, do escândalo da carne de cavalo vendida como bovina de vaca pura, certo, desta vez, sem incidência direta na nossa saúde, se não for na saúde cívica e deontológica, pois não passava de uma fraude à escala mundial. E deve ainda ter, certamente, presente na sua memória um outro mal que foi detetado no início dos anos 90, na Europa e que atingiu milhões de animais que podem ter adoecido por causa da ração – o escândalo da vaca louca que se transformou na doença do Kreuzfeld Jacob nos humanos e que assustou a Humanidade inteira. O fenómeno da ‘vaca louca’ ainda não totalmente explicado e confirmado pela ciência é, provavelmente, o caso mais espetacular e mediático de manifestação patológica, devido ao manejo agro-pecuário empregado, que choca frontalmente com a natureza do animal herbívoro ruminante. Isto é, usou-se proteína animal na fabricação de ração para bovinos. Essa farinha resultava da transformação industrial dos corpos de animais, usada depois nas rações para alimentar animais da mesma espécie. Assim, os animais afetados pela doença, eram reciclados para fazer mais farinha de carne e ossos para infetar mais animais, o que levou à epidemia.

No nosso país, ao dirigir-se a um talho para comprar carne já picada para fazer um simples esparguete à bolonhesa, pensa, com certeza, comprar só carne. Errado. O estudo feito pela Deco Proteste no início do ano denuncia que a maioria dos comerciantes adiciona sulfitos, aditivos proibidos que mantêm o tom vivo da carne e são potencialmente perigosos para alérgicos a esta substância. Além de temperaturas de venda desadequadas, a higiene e a conservação falharam em todos os locais visitados pelos inspetores da Deco Proteste. Por isso, cuidado com a carne picada. Não deixe a escolha da carne em mãos alheias. Verifique a temperatura do expositor, as condições higiénicas do talho e do funcionário.

 De todas as maneiras, a carne vermelha em excesso, diz a maior parte dos estudos, pode contribuir no aumento do risco de cancro. Mas, nem os outros alimentos apresentam-se melhor. O peixe está infestado com metais, os legumes e frutas têm químicos tóxicos. O vinho tinto, ora protege contra algumas doenças cardiovasculares por ser rico em flavonóides e resveratrol, tendo efeitos benéficos graças a ação dos antioxidantes no organismo, ora contribui ao aparecimento do cancro.

Tem sido demonstrado que o álcool aumenta o risco de vários tipos de cancro, incluindo da mama. Se é bem verdade que o consumo em excesso de certos alimentos aumenta o risco de cancro, e que a ligação entre alimentação e o surgimento ou agravamento das doenças está cada dia mais evidente, há também cada vez mais estudos que provam que alguns alimentos podem melhorar a saúde. O problema surge quando os estudos indicam os mesmos alimentos como causadores de cancro e benéficos para a saúde. Sal, carne, café, ovos, vinho, – heróis ou vilões? Já não sabemos em quem confiar, não sabemos o que nos faz bem ou mal, estamos completamente perdidos, à mercê dos grandes industriais que nos manipulam, sem escrúpulos, da maneira que lhes convém. E isso não se aplica só à nossa alimentação.

Dezenas de milhares de químicos industriais são empregados diariamente em produtos de consumo com avaliações duvidosas e inadequadas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) informa que 2,8 milhões de pessoas morrem anualmente em consequência de doenças associadas ao sobrepeso. E outros 2,2 milhões morrem por intoxicação alimentar. No mundo, segundo a OMS, o número de obesos atinge 1,5 mil milhões. Na China, o índice de obesidade duplicou nos últimos 15 anos, na Índia, subiu 20%. É óbvio que a alimentação está no centro desse problema mundial. Mais ainda: a comida saborosa, suculenta, vendida pela publicidade no mundo inteiro é resultado, na maior parte do tempo, da aplicação de uma lista quase interminável de aditivos químicos que dão consistência aos alimentos, mas interferem no metabolismo, produzem aumento de cálculos renais, ação tóxica sobre o fígado e reações alérgicas.

Há dados científicos que demonstram que a exposição pré-natal a certos químicos industriais está associada com fetos anormais, diminuição da inteligência, problemas comportamentais, infertilidade, maturação sexual anormal, disfunções metabólicas e cancro a se manifestar mais tarde na vida.

Estudos científicos sugerem que os disfuncionamentos endócrinos a que estamos expostos desde a fase uterina, podem afetar as gerações seguintes, pois podem ser herdadas por múltiplas gerações, até pelos netos dos nossos bisnetos.

É um fato lamentável que estamos todos submersos numa sopa química, do ar que respirámos, da água que bebemos, da comida que comemos, dos produtos de consumo que usamos e, até, da roupa que vestimos.

Recentemente, estive em Bruxelas e vi um programa na televisão que me assustou imenso. Sabia que no nosso armário pode habitar e esconder veneno? A nossa roupa e os sapatos vendidos pelas marcas muito conhecidas que tanto orgulho temos em vestir, contêm substâncias tóxicas, como o nonylphenol polyethoxyles (NPE), um produto altamente tóxico, que perturba o nosso sistema endocrinológico. A lavagem da roupa, antes de a vestir (pelo menos, duas vezes) permite a eliminação deste produto dos tecidos. O problema não desaparece, no entanto, porque o mesmo produto será reencontrado nas águas dos esgotos e depois nos nossos rios, a alimentar os peixes, as algas, as plantas, acabando desta maneira no nosso sistema digestivo.

Foi demonstrado que nos ratos, o nonylphenol aumenta significativamente o risco de cancro da mama. Esse mesmo produto pode ser reencontrado em certos produtos de manutenção e de limpeza, nos champôs, nos pesticidas utilizadas pelos agricultores e nas embalagens, com uma possível contaminação da cadeia alimentar.

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