Vamos falar sobre bullying?


Picture showing children violence at school

Com a chegada do novo ano letivo, e desta vez após quase cinco meses sem aulas presenciais, voltar à escola pode ser entusiasmante para alguns jovens, mas muito preocupante para outros. Isto porque a escola pode ser muitas vezes palco de sucessivos episódios violentos que deixam marcas para a vida.

 

O bullying é um tipo de violência que ocorre repetidamente e ao longo do tempo, numa relação caracterizada por desequilíbrio de poder e/ou força, na qual o indivíduo é exposto frequentemente a ações negativas por parte de uma ou mais pessoas.

Já muito se escreveu sobre este fenómeno, mas ainda surge a questão: a partir de que ponto pode ser considerado bullying? A grande diferença entre bullying e outro qualquer tipo de agressão ou violência é que o bullying é um tipo de violência que é repetido, intencional e onde existe um desequilíbrio de poder entre o agressor ou agressores e a vítima. Quando surgem outro tipo de comportamentos isolados, lutas ou brincadeiras sem intenção de magoar ou causar dano no outro, não pode ser considerado bullying.

Dados e consequências

Os últimos dados de um estudo da UNICEF (2017)[1] revelaram que metade dos alunos (1 em cada 3) com idades entre os 13 e os 15 anos, em todo o mundo, passa por situações de violência na escola ou nas imediações do estabelecimento de ensino

 

Em Portugal, 46% dos adolescentes dos 13 aos 15 anos indicaram ter sofrido bullying pelo menos uma vez nos dois últimos meses e/ou terem estado envolvidos em confrontos físicos pelo menos uma vez no último ano.

O bullying acarreta várias consequências para os envolvidos (isto é, vítimas, agressores e observadores), tais como isolamento, tristeza, comprometer a aprendizagem, levar à diminuição do rendimento escolar, aumentar a probabilidade do abandono escolar precoce, perturbar as relações interpessoais e o desenvolvimento socio-emocional das crianças e jovens, e aumentar a sensação de insegurança nas escolas. Outras consequências mais severas do bullying podem envolver o aumento da ansiedade, delinquência, depressão e ideação suicida. São vários os tipos de bullying (como psicológico, físico ou sexual) e a sua prática abrange diversas idades, rapazes e raparigas e várias formas de expressão (como homofobia ou racismo). O bullying com base na violência psicológica (agressão verbal, olhares intimidantes, mexericos, rumores) é apontado por vários investigadores como o tipo de bullying mais prevalente.

No entanto, com o aumento da utilização da Internet e das redes sociais por parte dos jovens, o bullying passou a existir fora dos portões da escola – cyberbullying – podendo acontecer em qualquer local e a qualquer momento, sendo ainda mais difícil de controlar.

 

Cyberbullying na quarentena

Durante o período de confinamento decorrente da pandemia do Covid-19, vários especialistas alertaram para o facto de milhões de crianças e jovens terem sido afetados pelo fecho de escolas, passando a ter aulas e a socializar mais online, deixando-os mais vulneráveis e expostos à possibilidade de ocorrer cyberbullying. Realizámos um estudo online entre junho e julho de 2020 com o objetivo de analisar a frequência de cyberbullying entre os jovens portugueses durante a pandemia do coronavírus. Participaram neste estudo 485 estudantes, de todos os distritos de Portugal e ilhas, a frequentar o ensino básico (1,4%), secundário (62,5%) ou superior (36,1%). Os resultados mostraram que a maioria dos estudantes já foi vítima de cyberbullying (61,4%) e mais de metade dos estudantes (59%) considera que existiu um aumento de mensagens e conteúdo prejudicial e violento online durante a pandemia.

É importante denunciar!
Não só a escola e a família, mas também os jovens podem ter um papel importante no combate ao bullying. Vários estudos indicam que os colegas estão presentes em mais de 80% dos episódios de bullying, podendo desempenhar diferentes papéis (incentivar o agressor, ajudar a vítima, não intervir). No entanto, apesar da eficácia na redução dos episódios de bullying, os comportamentos de ajuda pelos colegas são pouco frequentes. É urgente prevenir e atuar de forma alargada, sobretudo com os jovens que assistem aos episódios de bullying ou cyberbullying, encorajá-los a denunciar o que veem, preferencialmente em grupo, de forma a não arriscarem tornar-se as vítimas seguintes. Muitas vezes, os colegas têm medo de ajudar as vítimas bullying, receando tornarem-se eles próprios vítimas. Os alunos que veem um colega ser intimidado ou magoado, presencialmente ou online, devem procurar eles próprios ajuda e/ou tentar intervir – mantendo a ideia de que é fundamental não ficarem parados, nem compactuarem em silêncio com o que estão a assistir.

O bullying permanece e é frequentemente alimentado pelo silêncio dos envolvidos, dos observadores, da escola, de todos. O bullying não é uma brincadeira e não faz parte das etapas de desenvolvimento das crianças, como é, ignorantemente, afirmado por muitos. Das brincadeiras todos tiram proveito e não existe intuito de intimidar ou magoar o outro. É importante que todos estejamos atentos aos comportamentos dos jovens, que se apliquem medidas de apoio às vítimas e a todos os envolvidos. Que continuemos a falar sobre bullying – não só em outubro, no mês da prevenção e combate ao bullying, mas em todos os meses do ano. Porque muitos ainda não sabem do que se trata.

 

Projetos no nosso país

Existem em Portugal alguns projetos com vista a combater o bullying, tais como o projeto da Associação No Bully Portugal, que procura combater o bullying e proporcionar às escolas as ferramentas necessárias para prevenir, parar e resolver o bullying entre alunos, com base na empatia e inteligência emocional. Visite o site: https://www.nobully.pt/home

 

 

Raquel António
Doutorada em Psicologia
Investigadora no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-IUL) do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa
ana_raquel_antonio@iscte-iul.pt
https://ciencia.iscte-iul.pt/authors/raquel-antonio/cv

[1] https://www.unicef.pt/global-pages/_/porfimaviolencia-nas-escolas/

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