Yoga: caminho para a Felicidade?


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Beautiful young woman yoga instructor doing kapothasana in the gym. The concept of an advanced amateur yoga and body flexibility. Copyspace

Todos queremos ser felizes e, se já sentirmos que somos felizes, queremos ser ainda mais felizes. É humano. No entanto, atualmente, o conceito de felicidade está em crise, pois o espírito predominante dos nossos tempos é dominado pelo medo, insegurança e incerteza.

 

Há alguns séculos atrás (séculos XI e XII), o yogi e guru indiano Gorakhnath legou-nos a seguinte afirmação no texto Yoga Bija 87 (A semente do Yoga): “Não há mérito maior que o Yoga, não há felicidade maior que o Yoga (…) porque não há caminho mais elevado que o caminho do Yoga”. O Yoga não é um comprimido mágico com o potencial de pôr fim ao sofrimento humano e as aflições e dramas que lhe estão subjacentes, mas hoje sabe-se que a filosofia prática do Yoga tem inúmeros efeitos benéficos para a saúde física, mental e emocional do indivíduo.

Pode o Yoga ser um caminho para a felicidade? A resposta depende da experiência pessoal de cada praticantes, mas se considerarmos o Yoga como uma escola de vida no caminho para o autoconhecimento, já estamos um passo mais perto de nos sentirmos mais plenos e felizes. O trajeto pode ser longo, por vezes duro, outras desafiante, e exigir um nível de entrega que nem todos estão dispostos a ter. Mas pode bem valer a pena desbravar esse caminho que nos dirá ou não se podemos ser seres humanos mais felizes se nos conhecermos melhor e se formos mais verdadeiros connosco próprios.

A felicidade não se possui

 É o cultivo do autoconhecimento que permite que não nos deixemos levar por falsas crenças, etiquetas e julgamentos, que só limitam a nossa experiência e nos enchem a mente com novas camadas de dúvidas, medos e incertezas. Muitos se sentem espartilhados entre o que são na sua essência e o que deles se espera a nível social, familiar, profissional e individualmente. E quanto mais conectada está a sociedade (virtualmente, na maior parte dos casos), mais desajustados e sozinhos se sentem os indivíduos.

Fomos engolidos pela revolução tecnológica e pelo processo de esvaziamento do tempo e do espaço, enquanto nos deslumbrámos com os avanços da ciência e da tecnologia, como se a chave para a felicidade pudesse ser o controlo do homem sobre o homem e do homem sobre a natureza. Neste processo, muitos talvez ainda não se tenham dado conta de que estão a caçar fantasmas, pois se há coisa que a filosofia prática do Yoga ensina é que o ser humano já é, em si mesmo, felicidade. Não precisa de mudar nada, seguir falsas crenças ou desejar coisas que só o dinheiro pode comprar para se sentir mais completo, ajustado, pleno, consciente e amado. É frequente fazer depender a felicidade do modelo da competência e do cumprimento de métricas que vigoram em todos os domínios da vida humana (profissional, social, familiar e individual). Mas seremos mesmo mais felizes ao adquiri um determinado nível de riqueza, influência, poder, beleza e boa forma física, nível esse que nunca deixa de aumentar?

A felicidade não se ensina 

Quantos de nós já fizeram (ou fazem) depender a sua felicidade de fatores externos? Nunca seremos capazes de nos contentar com o que já temos e somos na nossa essência – seres completos e com todo o potencial de sermos felicidade – enquanto não silenciarmos o diabrete que nos sussurra constantemente ao ouvido que não somos suficientemente bons. A prática de Yoga pode ensinar-nos que o nosso crítico interior é um idiota e um manipulado, ao contrário da saída fácil que é esperar que alguém nos ensine a viver (de que são exemplo os livros de autoajuda).

A saída mais trabalhosa é aquela que nos impele a fazer a pergunta-vertigem “O que é a vida?” ou “Quem sou eu?” e descobrir a resposta através do autoconhecimento e do aprofundamento da consciência do “eu” interior.  Neste contexto, o Yoga poderá ser um caminho para a felicidade, se esta for encarada como moksha, ou seja, como a libertação do que nos faz mal, que limita a nossa experiência da realidade tal como ela se nos apresenta. A prática confronta-nos com os nossos limites, obriga-nos a ter o discernimento para perceber que somos mais do que este corpo mortal que temos, e que pouco interessa para a nossa felicidade e bem-estar se ele é bonito, perfeito ou se cabe nos moldes ditados pela moda e pela sociedade.

A felicidade não é o ego

As vidas modernas transformaram-se em autênticas corridas para riscar tarefas de listas impossíveis de cumprir e que foram autoimpostas. Muitas das aflições que sentimos diariamente e que se manifestam em stress, ansiedade e pensamentos negativos decorrem da incapacidade que temos de satisfazer todos os nossos desejos e ambições. Cada vez que pensamos “isto é meu” ou “se eu tiver aquela coisa ou aquela pessoa ou ser finalmente feliz, pleno e mais integrado comigo mesmo e com aquilo que me rodeia”, estamos mais longe de alcançar a felicidade, porque ela não é realizável através do ego. O Yoga pode ser um caminho para a felicidade, porque oferece espaço, tempo e ferramentas para lidar com os vários desafios físicos, mentais, emocionais e sociais com que nos deparamos no quotidiano e para que não nos sintamos tão frequentemente desequilibrados, cansados e desalentados. Além disso, o Yoga permite-nos pôr em prática o processo interno que é o sadhana com propósito, para que consigamos controlar os vrittis, as flutuações da mente. Praticar Meditação é fundamental neste processo, porque permite canalizar as atividades mentais em direção do todo, do cosmos, dessa consciência infinita que nos diz o que não somos, ou seja, que não somos este corpo mortal, não somos a nossa mente inquieta, muito menos os nossos pensamentos, emoções ou o que dizem sobre nós.

Encontrar a felicidade no tapete

Felicidade é o que somos e é a mente que nos traz sofrimento, pois a mente é feita de expectativas e desejos que não podemos concretizar e porque, de cada vez que satisfazemos um desejo, surge outro, tornando-nos ainda mais infelizes. É necessário quebrar este ciclo, praticar asana e pranayama para expandirmos corpo e mente, e pôr a energia a funcionar, de forma a estarmos mais propícios à concentração e à permanência numa posição estável e firme para meditar. A Meditação permite-nos distinguir entre o que é o ruído produzido pela mente e o que é voz interior que precisamos de escutar: a nossa consciência.

Esse ganho de espaço permite-nos a aquietação progressiva da mente e a perceção de que só podemos ter a certeza absoluta que estamos a viver o momento presente e que não existe mais nada além do “agora”. E é aqui que a prática de Yoga pode ser um caminho para a felicidade, pois o aquietamento da mente através da Meditação, e idealmente após a prática de posturas e técnicas respiratórias, leva à atividade mental em direção ao todo, ao infinito e ao cosmos do qual fazemos parte. Tendo isto presente, é impossível que nos sintamos sozinhos ou fragmentados. Se isso não é uma forma de felicidade, então não sei o que será.

Joana Marques
Professora de Yoga e Meditação

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